Velho do Restelo 1 x 0 Dilma Rousseff

lusiadas

Abro o Diário do Balneário e me deparo com a informação de que nossa presidente Dilma Rousseff ontem chamou a oposição de “Velho do Restelo” (vai o link para o Estadão porque achei primeiro). Confesso, não sou de rir sozinho diante de notícias, dou no máximo um sorrisinho, até porque o riso é mimético e demanda a presença de outras pessoas, mas essa mancada me fez gargalhar.

O Velho do Restelo é um personagem que aparece nos Lusíadas após a partida das naus de Vasco da Gama. Se é verdade que Vasco da Gama é o herói dos Lusíadas, também é verdade que Camões, que conheceu a colonização portuguesa onde ela acontecia, na África e na Ásia, e não apenas na metrópole, inseriu esse personagem para fazer um contraponto à euforia das navegações. O Velho do Restelo observa que sem as mãos jovens os velhos e as crianças ficam desprotegidos (contra invasões) e descuidados. Diz que as navegações são fruto da “glória de mandar” e da “vã cobiça”. Na verdade, o Velho do Restelo confirma avant la lettre toda a ideia de que as navegações eram uma forma maldosa de exploração, toda a narrativa da esquerda contemporânea.

Mais ainda, Os Lusíadas pode ser uma obra de ficção, mas é uma obra baseada em fatos reais, e que adquire ainda mais relevância quando colocada em seu contexto histórico e político, e não apenas literário. Se ela foi publicada em 1572, apenas seis anos depois Portugal sofreria a maior derrota de sua história, causada justamente pela euforia de Dom Sebastião, jovem monarca que se julgou capaz de enfrentar sozinho os mouros e cujo corpo desapareceu no Alcácer. Se o Velho do Restelo tivesse sido ouvido, não teria havido sebastianismo, nem União Ibérica, e o mundo hoje seria muito diferente. Nunca conheci um professor de literatura portuguesa que não observasse isso e que não demonstrasse simpatia pelo Velho do Restelo. Até por amor a Portugal.

Se quiserem me taxar de ideológico pelo que vou dizer, sei lá, mas o que eu espero de um presidente é que dê ouvidos ao Velho do Restelo. Que aja com prudência e que evite o excesso de confiança em suas políticas. E também gostaria, já que estou falando disso, que a própria oposição pudesse ser vagamente comparável àquele “velho de aspecto venerando”. Isso mostra as duas mancadas da presidente: não só ela não é Vasco da Gama nem deveria tentar ser, como falta muito fubá à oposição para merecer a comparação com o Velho.

É verdade também que Camões pode ter tido uma pequenina participação na débacle portuguesa de 1578. Afinal, foi ele quem disse, ao fim dos Lusíadas, que Dom Sebastião realizaria feitos ainda mais esplendorosos do que seus antecessores. Mas, vejam a ironia: Camões provavelmente disse isso, uma inserção considerada tardia, para ver se conseguia algo com o governo. Outra sugestão de que os poderosos não deveriam permitir que os bajuladores os deixassem cheios de si mesmos e antes procurassem a companhia dos críticos.

Até o mesmo livro em Kindle é mais caro no Brasil

Em função de uma investigação pessoal sobre o duplo angélico, decido comprar O alquimista, de Paulo Coelho. Como sempre dou preferência ao formato digital, vou até a Amazon procurar o livro em formato Kindle. Eis que descubro que o mesmo livro, ou o mesmíssimo arquivo, no mesmo formato, no mesmo idioma, é vendido pela mesma Amazon a preços diferentes em países diferentes. Não sei a razão disso, não deixo de ser fã da Amazon, mas gostaria de saber de onde vem esse preço. Sei que, no Brasil, o acordo das editoras com a Amazon permitiu que elas tivessem mais controle sobre os preços dos livros – é importante dizer isso antes de botarmos a culpa de tudo no “custo Brasil”.

A versão Kindle de O alquimista custa, na loja brasileira, R$14,99:

"O Alquimista" na Amazon brasileira

Se você for até a Amazon americana, O alquimista sai a US$3,98, ou neste sábado, 18 de maio, R$8,09 – um tiquinho a mais do que a metade do preço na Amazon brasileira.

"O Alquimista" na Amazon americana

Porém, a minha conta Kindle na Amazon é francesa. Passei um tempo na França, quis adquirir títulos digitais em francês e coloquei meu endereço francês na loja. Por querer manter na França a minha conta Kindle, paguei R$12,90 – mais aqueles tantos reais que virão de imposto pelo uso do cartão de crédito internacional etc.

"O Alquimista" na Amazon francesa

Agora, por quê? É o mesmo arquivo digital, provavelmente enviado do mesmo servidor no mesmo lugar. Não precisa passar no porto, não precisa passar pelo correio. Foi o acordo com as editoras brasileiras que elevou esse preço? Ou tem questões jurídicas aí que desconhecemos?

Cuspido e escarrado

Sem querer dar uma de filólogo, que certamente não sou, devo dizer que fico um tanto perplexo com a segurança com que ouço dizer que a expressão portuguesa “cuspido e escarrado” – usada em frases como “ele é o retrato cuspido e escarrado do outro”, no sentido de que ele é igualzinho ao outro – teria vindo de “esculpido em Carrara”. Carrara é uma cidade italiana de onde vem um tipo de mármore, conhecido justamente como “mármore de Carrara”.

A ideia de que o “esculpido em Carrara” deu “cuspido e escarrado” parece fazer sentido por causa da semelhança sonora. E também porque costumamos pensar que o povo interpreta mal aquilo que lhe parece exótico. Esse pensamento não é todo equivocado: quem mora no Rio sabe que a praça Saens Peña também é chamada de Saens Pena, e que o bairro de Realengo veio a receber esse nome porque era indicado em placas como Real Engo. Nesse caso, o interpretar mal significa interpretar uma regra desconhecida segundo uma regra conhecida. Aqui, é claro, haveria uma deixa para discutir o objetivo da educação: ensinar novas regras, ampliar o leque de regras conhecidas, ou ficar só “falando de coisas próximas da realidade do aluno”?

Mas, tornando à expressão, já procurei fontes autorizadas que digam que a origem de “cuspido e escarrado” é “esculpido em Carrara” e não achei nenhuma. O que sei é que, em inglês, existe, com sentido idêntico ao nosso “cuspido e escarrado”, a expressão spitting image, que por sua vez é sim uma “corruptela” fonética de spit and image, “cuspe e imagem”, expressão que vem da ideia bíblica de que Deus, com seu hálito, fez o homem à sua imagem. Em francês, há o portrait craché (“retrato cuspido”), e em italiano você pode dizer que é alguém é sputato (“cuspido”) a outro alguém.

Boa parte dessas informações, aliás, consta do verbete do Houaiss para “cuspido”. O Houaiss é o grande dicionário mais recente da língua portuguesa e creio não haver pedantismo em sugerir que consultá-lo seja obrigatório. Semana passada, vi gente que dizia até que o Brasil não devia fazer Olimpíada porque tinha transformado “esculpido em Carrara” em “cuspido e escarrado”. Não me lembro quem foi, nem importa. O que importa, mesmo, é ver que uns podem falar besteira, mas outros que vão criticá-los nem se dão ao trabalho de ir ao dicionário.

Camões não é um iPhone

Se fizerem um show com todas as músicas de Noel Rosa, Tom Jobim ou Ary Barroso, eu vou e assisto dez vezes. Mas saio de lá sem achar que passei a tarde numa biblioteca. – Bruno Tolentino

Se você olhar a tal da “alta cultura” apenas como um objeto que gente mais esnobe do que você usa para… esnobar você, então realmente a primeira estratégia que o ressentimento lhe ditará será desdenhar da “alta cultura”.

Agora, essa é uma visão inteiramente paranoica. Camões não precisa ser visto como um iPhone, nem como uma bandinha de rock obscura, como algo que vai ajudar você a achar que tem mais bom gosto do que os outros. Não conheço quem fosse ficar ressentido se de repente as pessoas atentassem para a genialidade rítmica de Sete anos de pastor”. É claro que mesmo dentro dos círculos “eruditos” existe esnobismo. Vou até contar para vocês um meu esnobismo. Creio ter feito a primeira tradução de um poema inteiro de Geoffrey Hill para o português; no dia em que o “descobrirem”, vou precisar rezar muito para não fazer cara de “só agora que vocês…?” Mas esse fenômeno é igual ao da pessoa que julga conhecer, digamos, o verdadeiro funk porque vai ao baile menos frequentado numa favela que as UPPs desconhecem. É só esnobismo.

Você pode, se quiser, interpretar o mundo exclusivamente como esse jogo de esnobismo, olha, lá está o Pedro com seu monóculo, lendo Camões e tomando vinho francês, desprezando a brava gente brasileira que sacoleja – e, quer saber, sacolejar também é cultura etc. Aí você pode criar uma pose para me esnobar, chamar o consenso universitário, dizer que o desdém que você me imagina sentindo é cultura do estupro e tal.

Mas você também pode sair desse inferno kafkiano, entender que a porta está aberta e é só entrar. Sim, apreciar certas obras de arte demanda trabalho, apuro. Demanda você acreditar que é você, espectador, consumidor, que precisa estar à altura daquele objeto. Mas peraí, o negócio também não é tão complicado. Veja o soneto Sete anos de pastor. Você se informa sobre a história bíblica tão curtinha em que o poema se baseia, adquire uma noção muito básica de métrica, percebe que aquele soneto é um jeito ritmado de contar a mesma história, e pronto. Em quinze minutos você abriu as portas de preciosas obras a que podemos dar nomes que hoje soam pomposos a nossos ouvidos caipiras, como “quinhentismo português”, “classicismo português” etc.

Agora, se sua escola, em vez de lhe proporcionar isso, preferiu usar o dinheiro dos seus impostos ou da sua mensalidade para dizer que torcer o nariz para quem fala “nós vai” é coisa feia, não apenas ela abusou do seu papel como ainda tentou colocá-lo no perverso jogo do esnobismo universal, como um demônio que pretende arrastar o aluno para o mesmo inferno de onde veio.

E quanto mais bibliotecas gratuitas, mais sites, mais wi-fi nas escolas houver, maior será esse ressentimento, mais disseminada será a interpretação de tudo pelas lentes do esnobismo, porque mais tempo as pessoas preferirão passar vendo vídeos de gatos – e logo vão dizer que isso foi a mesma coisa que passar a tarde lendo Camões.

Obviedades sobre raposas preguiçosas

Nada como ler, já com o dia de trabalho um pouco adiantado, a notícia, destacada na home de um dos maiores portais do Brasil (que não deixa de ser o país dos portais), de que a primeira colocada num mestrado na UFF vai estudar o funk e uma entidade chamada Valesca Popozuda. (Foi só publicar o post que já mudaram para “segunda colocada”.)

Quem tenha feito faculdades na área de Humanas não há de espantar-se. Claro que o portal destaca isso na esperança de gerar escândalo: como assim, estão estudando o vil funk, em vez de Machado de Assis, e com o dinheiro dos nossos impostos? Francamente, até eu partilharia desse escândalo, se já não tivesse passado anos numa faculdade de Letras e não soubesse que esse tipo de trabalho é absolutamente comum.

Mas há algo sim na matéria que merece uma pequena discussão: as declarações da menina de que não existe “hierarquia” entre “alta cultura” e “baixa cultura”, a sugestão de que Valesca Popozuda e José Saramago estão no mesmo patamar.

Isso é sempre muito engraçado. Você pode dizer que Toddy é superior a Nescau, mas não pode dizer que Saramago é superior, enquanto artista, a Valesca Popozuda? Bastaria essa pergunta retórica para encerrar a discussão. O que não me impede de prosseguir, em nome de clareza.

Você pode estudar qualquer coisa e fazer abstração de um juízo de valor. É um princípio metodológico: para entender X, não vamos ficar parando o tempo todo para dizer o que é melhor ou pior. Só que você não pode, no meio do estudo, transformar o seu princípio metodológico em um princípio doutrinal, um princípio em si.

E digo que você “não pode” não como uma proibição externa, mas porque você se contradiz. Então o princípio de que não existe melhor nem pior é em si melhor do que o princípio de que existe melhor e pior? É a mesma coisa de quem diz que a verdade não existe. É verdade que a verdade não existe?

Fica muito fácil entender, assim, o que está em jogo. Você transforma o princípio metodológico em doutrina – se faz isso por má fé ou não, eu sei lá. Depois começa a dizer por aí que não há diferença entre gostar de Saramago e gostar de Valesca Popozuda, e eu só posso imaginar que você se sente esnobado pelos fãs de Saramago e, como uma raposa preguiçosa, diz que a uva da “alta cultura” estava verde.

No fim de tudo, você, com todo o pujante imaginário do cancioneiro funkeiro carioca dos últimos cinco anos (sem dúvida tão rico quanto o da literatura mundial!), ainda vai dizer que eu é que sou o esnobe, conservador, autoritário etc. por dizer essas obviedades.

E, no epílogo dessa história, eu serei apenas obrigado a dizer que a disseminação desse tipo de pensamento, que acha que funk e Saramago são a mesma coisa, está gerando uma elitização fantástica. Nunca os bens culturais estiveram tão acessíveis a qualquer pessoa, e nunca foram tão desprezados. Aliás, para ser mais exato, nunca esteve tão na moda alardear o desprezo por eles.

Credo in sodales qui progrediunt et virgam sustinent flammarum

Tendo um amigo chamado a atenção para o inacreditável “Credo” que uma obra publicada pelas Edições CNB do B (apud José Osvaldo de Meira Penna), e divulgado pelo indispensável Fratres in Unum, julguei por bem encomendar uma sua tradução latina a um artesão que, como seus antecessores medievais, prefere o anonimato.

Até quando, eminências, julgareis que desprezar um mínimo de bom gosto é sinal de apreço pelo povo? Até quando crereis poder competir com o Faustão sem tornar-se igual a ele? Que a evangelização pode ou deve ser imiscuída como mensagem subreptícia em meio ao vil entretenimento, como merchandising divino?

Ecce novum Credo Iuventutis a CNBB editum, quod ab eis favetur confiturum in saecula saeculorum.

Credo in iuventutem quae nova quaerit, qui melius cras sperat et somniat somnos infantium.
Credo in puerum puellamque qui scit quod vult, qui pugnam firmiter confrontat, qui non a via currendi fugit.
Credo in sodales qui progrediunt et virgam sustinent flammarum.
Credo in puerum qui valorem reperit vivendi sicut fratres et sorores, necnon quaerit communitatem.
Credo omnes pueros omnesque puellas scire ‘sic’ dicere et etiam ‘non’ dicere.
Credo in iuventutem qui semper convenit ad vitam fruendam.
Credo in pueros et puellas Communitatis, ruris, scholae, vicinitatis, qui in sua realitate amorem vivere sciunt.
Credo in gradationem nostram ad novam societatem, ubi omnes fratres et sorores erimus.
Credo in vim pueri et puellae qui ridet, canit, saltat, flet, connubialiter diligit, expectat et novum cras facit.
Credo in Deum Patrem et Matrem, Liberatorem, et in omnem puerum omnemque puellam qui somniat Regnum Amoris eius.
Credo in Puerum Christum, qui voluntatem Dei cumplevit et copioso amore vixit.
Credo in Spiritum Sanctum, qui igne amoris excitat iuventutem omnem ad Liberatorem quaerendum.
Credo in Mariam, mulierem doloris et laetitiae, matrem dilectam nobis, omnium puerorum puellarumque qui in vita valorem suum reperiunt.
Credimus nos solum fide, vi et confidentia inituros in Regnum Dei et Populi.
Amen.

Caipirice & ironia

Acabo de ver um texto em que um sujeito – deliberadamente ocultarei sua identidade, mas é um professor universitário de fora do Brasil, e não é René Girard – promete que vai dar a verdadeira interpretação da Epístola de São Paulo aos Hebreus. Pasmo, pergunto-me: mas o senhor já leu os padres da Igreja? Os principais teólogos? O senhor está ciente de que existem dois mil anos de interpretação da Epístola aos Hebreus na sua frente?

Poderiam objetar: qual o problema de alguém dar a sua interpretação? Ora, o problema é justamente que essa interpretação já deve ter sido dada, e provavelmente impugnada… O que se apresenta como inédito provavelmente nada tem de inédito. Se eu chegasse aqui e dissesse que inventei o verso decassílabo, as calças compridas ou os números de páginas, o que vocês pensariam de mim?

Essa costuma ser a minha bronca com a imprensa. Assuntos complexos tratados por gente que não sabe nada, e que acha, sinceramente (porque a ingenuidade é necessariamente sincera), que é possível varrer para o lado tudo que não estiver de acordo com um consenso.

Eu sei que um dos paradoxos de hoje é que a verdade consiste em denunciar “verdades”. Mas como não perceber que o consenso da denúncia é também um consenso? Daí que eu fale em ingenuidade, em caipirice mesmo: trata-se de uma ausência de ironia. Ironia, aliás, que nada mais é do que olhar a si mesmo desde fora. Então o senhor realmente acha que, após dois mil anos, vai dar a explicação definitiva da Epístola aos Hebreus, e, mais ainda, sem fazer menção a ninguém?

Podem falar também de humildade. Mas agora vou ser forçado a ignorar o passado e tratar cada um que aparecer como a reinvenção da roda? É esse mesmo o critério? E não é Satanás quem está propondo?