Jogralidade infinita

De Camilo Castelo Branco, “Gracejos que matam”, no começo das Novelas do Minho:

Ordinariamente, chamam-se á franceza — espirituosos — uns sugeitos dotados de genio motejador, applaudidos com a gargalhada, e aborrecidos áquelles mesmos que os applaudem. São os caricaturistas da graciosidade.

O «espirituoso», á moderna, abrange os variados officios que, antes da nacionalisação d’aquelle extrangeirismo, pertenciam parcialmente aos seguintes personagens, uns de caza, outros importados:

Chocarreiro — tregeiteador — arlequim — palhaço — proxinella — polichinello — maninêllo — truão — jogral — goliardo — histrião — farcista — farçola — végete — bobo — pierrot — momo — bufão — folião, etc.

Esta riqueza de synonimia denota que o bobo medieval bracejou na peninsula iberica vergonteas e enxertias em tanta copia que foi preciso dar nome ás especies.

Ora, o «espirituoso» tem de todas. A antiga jogralidade, que era mestér vil, acendrada nos secretos crizoes do progresso social, chegou a nós afidalgada em «espirito», e com o fôro maior de faculdade poderosa, caustica, implacavel.

Ainda assim o estreme espirito portuguez, por mais que o afiem e agucem, é sempre rombo e lerdo: não se emancipa da velha escola das farças: é chalaça.

Ha poucos mezes, falleceu em Lisboa um «espirituoso» que andou trinta ou quarenta annos a passear a sua reputação entre o Chiado e o Rocio. As gazetas, ao mesmo passo que nos inculcavam o defunto como pessoa que vivêra aventurosamente uns setenta annos tingidos com primoroso pincel, descontavam n’estes defeitos a sua immensa graça, e reproduziram nova edição melhorada das suas anecdotas.

Averiguado o «espirito» do homem em coisas burlescas de que fez mercancia na feira politica, liquida-se, quando muito, um folião que desbragava a penna e desembestava asselvajadamente o insulto. Por este, que não deixou nome sobre-vivente para vinte quatro horas—nem o terá aqui—orça a maioria dos jograes que tenho visto, nos ultimos trinta annos, esburgar o osso da facção que lhes alquilla o engenho detrahidor, e acabarem antes da geração que os galardoou com a moeda falsa das rizadas.

O satyrico de sala e botequim é mais funesto e menos trivial que o politico; mais funesto por que vulnéra melindres—coisa que o callôso peito da politica não tem nem finge; menos trivial, porque o chiste de Sterne, de Byron, de Voltaire, do padre Isla, de Heine e Boerne não apégou aqui, nem se adelgaça á feição da nossa indole, bem accentuada nas chocarrices plebeas de Gil Vicente e Antonio José.

As dicas dos parentes e amigos de Jane Austen

W.H. Auden escreveu em algum ensaio que não entendia “por que as pessoas que não sabiam o que fazer da vida decidiam tornar-se escritores. Por que não advogados ou dentistas?” Por que, caro senhor Auden, a todos parece fácil escrever. Também parece fácil traduzir. Outro dia, como eu comentasse alguma dificuldade com um termo, e acrescentasse que já tinha procurado alguns dos tradutores que mais respeito, ouvi um inocente “E por que você não consulta alguma pessoa americana? Eu conheço alguns americanos.” Felizmente não precisei responder; mas o leitor pode ficar sabendo que eu apenas diria que, assim como eu mesmo não sei mais do que o Dicionário Houaiss ou o Caldas Aulete, o americano médio não sabe mais do que o Oxford ou o Merriam-Webster.

Encerro o desabafo e volto à literatura. A todos parece fácil escrever. Sentar-se no computador, despejar um romance, possuído como Cassandra; se o público gostar, isso é aleatório e imprevisível, como se a diferença na qualidade entre uma lanchonete de aeroporto e o melhor restaurante fosse aleatória e não o fruto de cuidado. E isso tem a ver com algo que, de modo geral, é muito difícil para as pessoas, não apenas brasileiras: a dificuldade extrema em descrever para si as razões de gostar ou de desgostar de algo. Se elas tivessem uma pequena ideia do trabalho que dá descrever para si as próprias preferências, a razão destas preferências, e, após a descrição, tentar modificar algumas dessas preferências, elas teriam uma apreciação melhor do trabalho do artista.

Jane Austen teve o bom humor de reunir essas dicas todas e redigir um pequenino projeto de romance, o que dá uma boa ideia da distância entre aquilo que as pessoas imaginam gostar e aquilo de que elas efetivamente gostam. As dicas só fazem pensar na criança que imagina que todas as coberturas juntas em cima do sorvete produzirão algo que seja não apenas palatável, mas a suma delícia.

O projeto foi escrito em 1816, Jane Austen já tinha publicado quatro romances que lhe deram fama e sustento (não exatamente fortuna): Orgulho e Preconceito (essa tradução, de Alexandre Barbosa de Souza, é excelente), Razão e sensibilidade, Mansfield Park e aquele que deve ser o maior de todos, Emma (diz a lenda que Ivo Barroso traduziu, só não foi ainda publicado). (Os outros dois romances conhecidos, Persuasão e A abadia de Northanger, foram publicados após sua morte.)

Leia o original.

Cenário rural, Heroína filha de clérigo, alguém que após viver muito tempo no mundo retirou-se dele para um vicariato, com uma pequena fortuna. – Ele, o melhor homem que se pode imaginar, perfeito de caráter, temperamento e maneiras – sem a mais mínima mácula ou peculiaridade a impedir que ele seja a companhia mais agradável possível a sua filha o ano inteiro. – Heroína também personagem sem mácula, – perfeitamente boa, com muita ternura e sentimento, e, claro, muito espirituosa – prendadíssima, compreende as línguas modernas e (de modo geral) tudo que as moças mais prendadas aprendem, mas com um dote especial para a Música – seu passatempo favorito – e toca igualmente bem o piano e a harpa – e canta maravilhosamente. Sua aparência é muito bonita – olhos escuros e rosto rechonchudo [essa era a descrição da própria Jane Austen]. – O livro deve começar descrevendo pai e filha – que, ao conversar, terão falas longas e linguajar elegante – num tom de emoção séria e sublime. – O pai será induzido, diante do fervoroso pedido da filha – a relatar-lhe os acontecimentos pregressos de sua vida. Essa narrativa tomará a maior parte do primeiro volume – e também todas as circunstâncias de seu apego à mãe dela e seu casamento, e compreenderá suas viagens marítimas como Capelão de um distinto personagem naval da Corte, e sua própria ida posterior à Corte, o que o levou a conhecer diversos personagens e colocou-o em diversas situações interessantes, concluindo com suas opiniões sobre o desperdício das rendas dos dízimos, e com o fato de ter enterrado suas própria mãe (a tão chorada avó da Heroína) como consequência de o Sumo Sacerdote da Paróquia em que ela morreu ter-se recusado a oferecer a seus restos as devidas condolências. O pai será bastante literato, Entusiasta da Literatura, inimigo de ninguém exceto de si mesmo – ao mesmo tempo em que é zelosíssimo no cuidado de seus deveres pastorais, um modelo de sacerdote exemplar. – A amizade da Heroína será procurada por uma moça da vizinhança, de talentos e malícia, com olhos e pele clara, mas, tendo um grau considerável de argúcia, a Heroína evitará sua convivência.

Desse cenário procederá a história, que conterá uma impressionante variedade de aventuras. A Heroína e seu pai nunca passam mais de quinze dias no mesmo lugar, porque ele é expulso de seu vicariato pelas vis artes de um rapaz sem princípios nem coração, desesperadamente apaixonado pela Heroína, que a persegue com paixão incansável. – Mal assentam-se num país da Europa e precisam deixá-lo e ir a outro – sempre travando novas amizades, sempre obrigados a deixá-las. – Isso, é claro, exibirá uma grande variedade de personagens – mas não haverá mistura; a cena sempre mudará de um grupo de pessoas para outro – mas tudo que é bom será imaculado sob todos os aspectos – e não haverá qualquer fraqueza ou defeito, exceto nos maus, que serão completamente depravados e infames, sem que reste neles praticamente nenhum indício de humanidade. – No início da trama, durante seus primeiros deslocamentos, a Heroína tem de conhecer o Herói – alguém obviamente perfeito – , que só será impedido de dirigir-se a ela por algum excesso de polidez. – Onde quer que ela vá, alguém se apaixona por ela, e ela recebe repetidas propostas de casamento – que ela repassa integralmente ao pai, muitíssimo zangado porque ele não foi procurado primeiro. – Muitas vezes raptada pelo Anti-Herói, mas resgatada por seu pai ou pelo Herói – muitas vezes obrigada a sustentar a si e ao pai com seus talentos, e a trabalhar pelo pão; continuamente enganada e ludibriada em seu trabalho, reduzida a pele e ossos, e volta e meia à inanição. – Por fim, expulsos da sociedade civilizada, tendo o pobre abrigo do mais humilde casebre recusados, são forçados a retirar-se para Kamchatka, onde seu pobre pai, absolutamente desgastado, vendo o fim aproximar-se, jogar-se no chão, e após quatro ou cinco horas de ternos conselhos e admoestações a sua triste filha, expira, numa bela efusão de entusiasmo literário, entremeada de invectivas contra os controladores dos dízimos. – A Heroína permanece inconsolável por algum tempo – mas depois lentamente se dirige para sua terra natal – estando por pelo menos vinte vezes prestes a cair nas mãos do Anti-Herói – e, finalmente, no exato instante em que vira uma esquina para evitá-lo, cai nos braços de ninguém menos do que o Herói, que, despojando-se dos escrúpulos que outrora o impediam, estava naquele momento partindo em busca dela. – Dá-se o mais terno e completo esclarecimento, e eles ficam juntos e felizes. – Ao longo de toda a obra, a Heroína gozará das companhias mais elegantes e viverá em grande estilo. O nome da obra não será Emma, mas algo do mesmo estilo de Razão e Sensibilidade e Orgulho e Preconceito.

Projeto de romance segundo sugestões de diversas pessoas, 1816

Ter um bom lobby é mais importante do que ter razão

Não sei se sou contra as cotas em si. Sou contra soluções políticas que gerem ressentimentos ou que tenham a propensão a aumentar conflitos de modo geral. Não sei avaliar as cotas por esse princípio. Até porque, na verdade, ele me parece profundamente brasileiro: criar cotas, ou conceder privilégios a grupos, é a maneira brasileira de administrar conflitos. Então você quer fazer uma peça que ninguém quer assistir? Toma aqui a chupeta da Lei Rouanet, meu filho. Assim, vendo cotas, bocejo e penso: a mesma lógica aplicada a um caso diferente. Nós liberais não repetimos a frase de Bastiat que diz que o Estado é a grande ficção pela qual todos tentam viver às custas de todos?

(É claro que essa lógica levada ao extremo levará à implosão do Estado. Mas isso é outra história.)

Mas creio também que nós que por tanto tempo fomos contra as cotas negligenciamos um ponto deveras óbvio: houve a escravidão, e ela foi abolida sem que os negros recebessem qualquer reparação. Na verdade, o governo imperial ofereceu uns empréstimos aos donos de escravos para apaziguar a eles, fazendeiros, o que só demonstra que, mais importante do que ter razão, é ter um bom lobby, e isso desde sempre. O que exatamente deveria ter sido feito, eu não tenho a menor ideia, e isso me faz pensar que, bom, cotas são alguma coisa. Não sei se são uma boa coisa. Mas sei que são alguma coisa, e do outro lado não existe uma contraproposta.

Existe um paradoxo, que muito me interessa, e para o qual muitos conservadores não atentam. O cristianismo pode ser entendido como a defesa das vítimas. O conservadorismo quer um Estado que se baseie em valores cristãos. Então o Estado tem de defender as vítimas. Sim, eu sei que ao dizer isso estou dizendo que qualquer grupo que se venda como vítima (justa ou injustamente, o mérito não importa, o que importa é a percepção) vai acabar ganhando privilégios (devidos ou indevidos, não importa etc.). Mas volte ao início do parágrafo: falei em paradoxo. O politicamente correto só pode existir no mundo cristianizado. Nietzsche tinha razão. Conservadores e esquerdistas concordam que o dinheiro de quem paga impostos deve ser usado para defender vítimas. Sejam vítimas da concorrência das empresas estrangeiras ou da escravidão, a estrutura do raciocínio é a mesma.

Não terminamos aí no que diz respeito a paradoxos. Há também o negócio de que todos são iguais perante a lei, mas a lei deve tratar os desiguais na medida de sua desigualdade. (Não é a minha opinião, você abre qualquer livro de Direito e isso está lá.) Então a defesa das cotas pode se seguir mais ou menos desse segundo princípio, o mesmo princípio, aliás, que leva à existência de uma defensoria pública, porque todos têm direito de defesa, mas nem todos podem pagar advogado etc. Eu estou dizendo que isso é um paradoxo porque muitos conservadores vão defender a premissa sem aceitar a consequência. E, francamente, é esse tipo de desatenção que solapa o conservadorismo brasileiro. (Não que eu ache que a nossa esquerda se distinga pela finesse de seus raciocínios, nem que deixe de cometer o mesmo pecado, que é aceitar as premissas e recusar a conclusão.)

Porém, os conservadores têm razão ao apontar a idiotice de boa parte do discurso associado à defesa das cotas. “Consciência negra” é algo que faz tanto sentido quanto “consciência branca”. Os conservadores também têm razão em dizer, é claro, que esse tipo de discurso gera ressentimento. Sei que muita gente na esquerda pensa que o que falta é ressentimento, o que falta é combate e combatividade. Eu penso nos tumultos de Los Angeles.

De minha parte, em termos práticos, penso o seguinte. Sou contra a lei do racismo por várias razões, mas vou apresentar apenas uma. Se ela fosse cumprida à risca, teríamos um caso de fiat justitia, pereat mundus, e boa parte dos velhinhos brancos do Brasil teriam de ir para o xilindró. A esquerda fica enchendo o saco com a superlotação dos presídios (provavelmente uma causa justa) e não pode se esquivar dessa questão. Ou vamos prender todo mundo que se declara aliviado por ver que os netos não namoram negros ou vamos admitir que qualquer mudança de mentalidade demora um tempo. De minha parte, creio mesmo que o racismo é uma questão em grande parte geracional, e só tende a desaparecer. Agora, se é para fazer lei, então é para cumprir. A lei do racismo serve sobretudo para desmoralizar o Estado brasileiro.

Também penso, como liberal, que a melhor solução acabaria ajudando a todos, de todas as raças e de todas as autodescrições do censo, que é a pura liberalização. Se há mais de 100 anos o negro pudesse empreender (e não vamos esquecer da odiosa Lei de Terras imperial), e o branco pobre também, e o índio, e qualquer um; se tivéssemos um sistema jurídico que incentivasse o trabalho livre e não o lobby por privilégios, a situação dos negros seria muitíssimo diferente. Do jeito que está, como já observei, negar aos negros o direito de fazer lobby por privilégios é praticamente negar-lhes o direito a ser brasileiros. Mas o governo poderia fazer a reforma tributária, por exemplo. Seria bem mais difícil do que dar cotas para meia dúzia de negros, até porque isso significaria que o governo teria de abdicar do seu poder de pressionar e de parasitar a sociedade. Seria benéfico também porque subverteria a questão. Em vez de os negros pensarem que benefícios podem extrair do governo, poderiam relegar o governo a seu devido plano de fundo (sim, querida esquerda, a redução do governo, sua desmistificação, é isso mesmo que eu quero) e colher eles mesmos os benefícios do seu trabalho. Não era isso que a escravidão os impedia de fazer?

Maternidade opcional x paternidade obrigatória

Já sei de antemão que o que vou dizer corre um sério risco de ser mal entendido, mas mesmo assim lá vai: defender o direito ao aborto, defender aquilo que hoje chamam de (peraí que eu vou encher a boca de farofa, porque só assim é possível falar as palavras a seguir) “empoderamento” e “direitos reprodutivos” da mulher, é defender que a maternidade é opcional. No entanto, existe um movimento no Brasil para que o reconhecimento de paternidade seja obrigatório.

Daí que, pergunto eu, não podemos considerar o abandono da mulher grávida pelo engravidador como uma espécie de aborto tácito? Veja-se, por exemplo, que o homem sequer propôs que o filho fosse despedaçado vivo ou tivesse o crânio arrebentado para que um tubo de sucção pudesse mecanicamente cumprir o resto do serviço. Ele simplesmente entregou a criança à sorte, ou à mãe. Se isso é bom ou mau, vou deixar que os seus preconceitos decidam.

Não deveria o homem também gozar de (farofa, peraí) “direitos reprodutivos”, tendo pelo menos até uma certa data para avisar à mulher se deseja ou não aquela gravidez dela, e tornar-se, segundo sua opção, responsável materialmente pela criança, ou, desculpe, por aquele monte de células? Por que os (já estou quase engasgando de tanta farofa) “direitos reprodutivos” da mulher supõem o dever do homem de arcar materialmente com a decisão que, dizem os abortistas, cabe exclusivamente à mulher?

Devo recordar que eu mesmo sou violentamente contra o aborto, mas isso não me impede de observar a tremenda incoerência naquilo que se propõe. Se a mulher puder abortar, o homem também tem de poder. Não ficam dizendo (acho que até em alguma das encíclicas publicadas por algum ministro do STF) que se homem ficasse grávido haveria clínicas de aborto em cada esquina? Então por que a lei desse país machista patriarcal patriarqueiro falocêntrico capitalista selvagem opressor fica obrigando os homens a reconhecer a paternidade de crianças que eles abandonaram quando elas ainda não passavam de montes de células sem vida indistinguíveis de um tumor?

Em suma: não dá para defender que a maternidade é opcional sem que a paternidade seja opcional também. Se a sociedade adota o caminho da ausência de responsabilidade individual, propondo até que “ausência de condições psicológicas” seja razão para uma mulher justificar o aborto, eu não sei porque é que um homem não poderia alegar a mesma coisa.

Mas enfim, mas enfim, o mais importante mesmo é que vejam a minha modesta proposta como uma especulação, e não que pensem que estou a cobrar coerência, de dedo em riste, de quem já abdicou da ideia de responsabilidade individual própria. Porque eu sou que nem o Leonard Cohen. I have seen the future – it is murder.

A meia entrada, esse assunto que é um dos meus favoritos

Já comentei que a meia entrada é um absurdo que deve ser visto dentro de um contexto. Se quem produz espetáculos recebe subsídios diretos e indiretos, e pode produzir sem risco, eu na verdade me pergunto até porque é que ainda cobram ingressos. A arte brasileira não quer sair do Convênio de Taubaté.

Mas o que admira e consterna é ver gente adulta querendo dar a entender que não compreende a mais elementar das obviedades: que uma política de meia entrada terá um impacto no mercado de ingressos. Essa semana, o querido (não é ironia) Diário do Balneário falava de como os ingressos para shows no Rio de Janeiro são, veja só, os mais caros do mundo. Claro que isso em parte vem do mito de que existem preços absurdos. Você acha que um preço é “absurdo” porque desconhece a oferta e a demanda por aquele bem. Porque, como sabe qualquer pessoa que tenha de vender alguma coisa, se algum preço se mantém, é porque as pessoas estão pagando. E se as pessoas estão pagando X, por que vender por menos do que X? É por essa razão que eu sempre disse que a Apple pode fabricar iPhones a cem metros da minha casa que não vai ser por isso que eles vão mudar de preço. Grave o seguinte mantra em sua mente: preço não tem nada a ver com custo. Ou melhor, só tem a ver na medida em que, se o custo de fabricar algo é maior do que seu preço de venda, é melhor você não fabricar esse algo.

Volto à meia entrada e às ingenuidades. Claro que você pode defendê-la dentro do contexto de absurdos: subsídio pra lá, subsídio pra cá. Mesmo assim, vale a pena estudar o Convênio de Taubaté. Cai no ENEM? Enfim. Você também pode falar como um político – e quem não se lembra de Lindbergh Farias no palanque, aquele jovem demagogo? – e dizer que a meia entrada é a salvação da civilização ocidental. Que, assim, os estudantes do Brasil terão acesso à CULTURA: shows do Chiclete com Banana, da Madonna etc. No seu discurso demagogo, você, é claro, não vai tocar na questão de que, assim como uma tarifa ou uma cota interferem no preço de equilíbrio de um produto, também a política de meia entrada interfere. E se quem não lê textos de economia conhece Milton Friedman pela frase “não existe almoço grátis”, podemos reformulá-la da seguinte maneira: alguém paga por tudo que acontece. A meia entrada é só uma ilusão demagógica, na qual você acredita porque é estudante, e não existe grupo mais propenso à demagogia do que os estudantes.

Um produtor de São Paulo demonstrou, no DB, sinceridade e clareza ao dizer que os preços dos ingressos de shows internacionais são altos “porque as curvas da oferta e da demanda se cruzam muito acima”. Pode acrescentar aí a meia entrada: se é verdade que 70% a 90% dos ingressos vendidos são meia, então o preço oficial é bastante aumentado. Não é necessariamente dobrado porque o produtor poder arcar com alguma parte do aumento, embora eu ache difícil que, nesse caso…

Meditação de Páscoa

Os apóstolos viram Jesus ser torturado e morto. Mas não decidiram vingar-se. Não quiseram criar uma milícia, nem fundar um grupo terrorista. Não juraram derrubar Pilatos, Herodes, nem o Império Romano.

Talvez porque Jesus tenha realmente ressuscitado e mudado o foco.

O bom filho à casa torna

Estou de volta ao WordPress. Foi a maneira mais fácil de recuperar cerca de 300 posts que eu nunca tinha levado para o Blogger. Ainda falta arrumar um bocado de coisas, mas isso será feito aos poucos.

Mas, caramba, as coisas estão bem mais organizadas.

O choramingo como valor universal

Lá estão a exigir que o Papa “exija” de Raúl Castro a libertação de todos os presos políticos de Cuba. Exigiram também que a nossa presidente Dilma Roussef fosse lá encher o saco a respeito de direitos humanos. Foge-me que alguém espere que um chefe de Estado em visita oficial vá tocar nesse tipo de assunto. Primeiro porque isso é equivalente a ser convidado à casa de alguém e dizer: “Eu sei o que você fez no verão passado.” Segundo porque é ineficaz. Se é possível creditar o chefe de Estado mais ativista da história recente, isso é, o Papa João Paulo II, com alguma eficácia, então é preciso observar que ele jamais usou a tática de bater o pé & fazer beicinho. É um tanto vergonhoso dizer, mas há outros jeitos de transmitir uma mensagem além de esfregá-la na cara do destinatário, e os meios sutis de ação também funcionam, se é que não funcionam melhor. Vamos lá, querida direita, vocês não ficam acusando a revolução gramsciana? Ao menos alguma coisa poderiam ter aprendido.

As relações internacionais são regidas (em parte) pelo princípio da não-ingerência. O Papa não vai chegar em Cuba e exigir diretamente nada, mesmo que devido, porque não lhe cabe fazer isso naquele momento. Igualmente, Raúl Castro não vai dizer: “Pô, e esse negócio de pedofilia, hein? E esses escândalos financeiros?” Igualmente, ele também não diria a Dilma Rousseff para dar uma olhada nessa história de trabalho escravo.

A declaração mais escandalosa – digamos assim – da história recente de que consigo me lembrar é o famoso discurso de Ronald Reagan em Berlim, em frente ao portão de Brandeburgo, em que ele se dirige diretamente a Gorbachev (que não era um líder alemão, mas soviético), dizendo: “Senhor Gorbachev, derrube esse muro!” (E se você tem treze anos, ele estava falando do Muro de Berlim.) Isso porque foi de um grande contra outro grande. Se a presidente fosse a Cuba fazer exigências, alguém diria que ela está bancando a valentona, ou, em porto-inglês contemporâneo, “fazendo bullying”. Até porque exigências feitas por chefes de Estado precisam ser bancadas pela força. Se o Papa demandasse a libertação de qualquer pessoa, Raúl Castro seria obrigado a recordar a famosa pergunta de Stálin: “Quantas divisões tem o Papa?”

O que me parece estar se estabelecendo é realmente a choradeira como valor universal. Espera-se que a presidente exija, espera-se que o Papa exija, espera-se que fulano se posicione, que beltrano fale. Mas e os resultados? A indignação pública contra algum mal pode não ser o meio mais eficaz de acabar com ele. No entanto, as pessoas serão hoje celebradas e receberão sua carteirinha de sócio do Clube das Pessoas Legais se baterem o pé, não se obtiverem resultados. O que, aliás, até me recorda que ninguém mais do que o então Cardeal Joseph Ratzinger contribuiu para a celeridade nos processos contra pedófilos, inclusive ordenando que fossem entregues às autoridades civis. Mas, como ele não choramingou, não fez um discursinho, você, que se diz imune ao populismo, não vai acreditar.

Sobre a privatização dos aeroportos, ou: O seu PowerPoint é uma navalha

Os aeroportos de Guarulhos, Viracopos e de Brasília são “privatizados” com recursos que vêm do BNDES. 80% dos recursos vêm do BNDES. E vão para fundos de pensão de estatais. Que compram os aeroportos do governo. Se eu entendi bem, é mais ou menos como um cidadão privado usar um cartão de crédito para pagar a fatura do outro cartão de crédito. Essa analogia me parece muito boa: no fim, é o cidadão privado que paga.

O presidente do BNDES e outras otoridades celebram a confiança na economia brasileira. Mas se os recursos vêm do BNDES, isso parece confiança no BNDES. Que tem aquela linha direta com o Tesouro Nacional. Parece mais confiança nas capacidades de o governo de arrecadar e de imprimir dinheiro. Por outro lado, eu não consigo lembrar de atividades econômicas no Brasil que não envolvam o BNDES. O Brasil é o país dos incentivos, não das recompensas: em vez de enriquecer um empresário comprando seu produto ou serviço, o povo brasileiro o enriquece incentivando seu trabalho. Como diria Clarice Lispector, se a burguesia fede, é porque seu PowerPoint é uma navalha.

Mas de repente eu me lembro de que a independência do Brasil aconteceu assim. Houve uma revolução “liberal” em Portugal, que ordenou a volta do rei e o aperto da colonização sobre o Brasil. Então o regente brasileiro libertou o Brasil do liberalismo português e logo depois implementou uma espécie de ditadura.

Não é que depois de lembrar disso tudo comece a fazer sentido. Mas é que, quando liberalismo significa manutenção do exclusivo (pacto) colonial, por que privatização não pode significar uma compra com recursos do governo por consórcios de entes paraestatais?

Sempre a polícia de preços

Talvez seja possível dizer que O Globo é um jornal mais pró-mercado, pró-liberdade econômica, do que o contrário. Estou dizendo isso dessa maneira porque provavelmente o jornal ecoa a opinião geral, de que “deve haver limites à liberdade econômica”. No entanto, volta e meia o jornal resolve encarnar o papel de polícia dos preços. Fiscais do Sarney, o quarto poder (se você é muito jovem, vá procurar o que são os, ou as, “fiscais do Sarney”).

Hoje acordo e lá está aquela matéria que sempre retorna sobre preços “abusivos” de estacionamentos. O pior é que estacionamento não é nem mesmo, digamos, um bem essencial sobre o qual alguém exerça alguma espécie de monopólio. Não é, digamos assim, como a renovação da carteira de motorista, que aqui no Rio custa uns 100 para o Detran, mais a taxa da clínica, e mais um monte de aporrinhação só para você poder continuar fazendo o que sempre fez. Estacionamento em certos lugares é um bem totalmente opcional.

De todo modo, o que não dá é ficar reclamando que o Brasil está sempre mal nos índices de liberdade econômica e depois ficar chamando a polícia do preço nos estacionamentos. O pior é que não consigo dizer que estacionamento é um negócio e compra quem quer sem sentir aquela vergonha idiota por estar dizendo o óbvio. Se eu fosse marxista, diria que isso é apenas uma estratégia do grande capital (que não há de se incomodar com o alto preço de um estacionamento) para aliciar a classe média (que sofre com o alto preço de um estacionamento).