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Monthly Archive December, 2006

Ah, tudo é símbolo e analogia!

December 31st, 2006 by Pedro Sette Câmara in Domingo com poesia

Primeiro Fausto
“Primeiro tema: o mistério do mundo”
Fernando Pessoa
VI
Ah, tudo é símbolo e analogia!
O vento que passa, a noite que esfria,
São outra coisa que a noite e o vento —
Sombras de vida e de pensamento.
Tudo o que vemos é outra coisa.
A maré vasta, a maré ansiosa,
É o eco de outra maré que está
Onde é real o […]

Agora, Bakunin e Herzen segundo Tom Stoppard

December 28th, 2006 by Pedro Sette Câmara in Tradução: prosa

Alexander Herzen, revolucionário russo não-marxista (Herzen e Marx se odiavam), tinha um filho surdo, Kolya, que junto com a mãe de Herzen, morreu afogado num naufrágio. Três meses depois a esposa de Herzen, mãe de Kolya, literalmente morreu de desgosto. Michael Bakunin, outro personagem real, também um revolucionário russo, encontra-se com Herzen. O trecho é […]

Lágrimas

December 24th, 2006 by Pedro Sette Câmara in Domingo com poesia

Lachrimae Amantis
(Geoffrey Hill)
What is there in my heart that you should sue
So fiercely for its love? What kind of care
Brings you as though a stranger to my door
Through the long night and in the icy dew
Seeking the heart that will not harbor you,
That keeps itself religiously secure?
At this dark solstice filled with frost and fire
Your […]

Bakunin & Belinsky segundo Tom Stoppard

December 19th, 2006 by Pedro Sette Câmara in Tradução: prosa

The Coast of Utopia: Voyage. New York: Grove Press, 2002.
BAKUNIN: Você disse que nós não temos literatura.
BELINSKY: É isso que eu escrevo. Não temos mesmo. Temos algumas obras-primas, como é que não teríamos, somos tantos, um grande artista vai aparecer de tempos em tempos em países bem menores do que a Rússia. Mas como nação […]

Psicologia de um vencido

December 17th, 2006 by Pedro Sette Câmara in Domingo com poesia

Augusto dos Anjos
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
monstro de escuridão e rutilância,
sofro, desde a epigênese da infância,
a influência má dos signos do zodíaco.
Profundissimamente hipocondríaco,
este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme — este operário das ruínas —
que o sangue podre das […]

Moraes por Bishop

December 15th, 2006 by Pedro Sette Câmara in Tradução: verso

Sonnet of intimacy
Translation by Elizabeth Bishop
Farm afternoons, there’s much too much blue air.
I go out sometimes, follow the pasture track,
Chewing a blade of sticky grass, chest bare,
In threadbare pajamas of three summers back,
To the little rivulets in the river-bed
For a drink of water, cold and musical,
And if I spot in the brush a glow of […]

O maior poema da língua portuguesa

December 10th, 2006 by Pedro Sette Câmara in Sobre literatura

Quem me conhece pessoalmente sabe que eu adoro fazer afirmações categóricas a respeito das coisas, ainda que dali a duas semanas eu venha a afirmar categoricamente o contrário. Tudo bem; detesto desculpas astrológicas, mas assim são os geminianos. O que importa, agora, é que hoje fiquei com muita vontade de fazer uma séria afirmação categórica: […]

Sete anos de pastor

December 10th, 2006 by Pedro Sette Câmara in Domingo com poesia

Camões
Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prêmio pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assi negada a […]

Os falcões

December 3rd, 2006 by Pedro Sette Câmara in Domingo com poesia, Tradução: verso

Publicado originalmente em Pequena Morte.

I falchi
Bruno Tolentino
Dicono: ‘lascia stare, anche di loro
ti scorderai, perche è così la vita;
c’è il buio ormai, non c’è più l’ala d’oro,
hai torto di stupirti che sconfitto
cada ogni falco dalla sua altezza…’
Il sogno che sognai dell’infinito
era ancora promessa ed ogni ebbrezza
ad ogni altezza mi sarà rapita,
tutto è troppo mortale, e ben […]