April 29th, 2007 by
Pedro Sette Câmara in
Domingo com poesia
Carlos Drummond de Andrade, A vida passada a limpo.
O meu amor faísca na medula,
pois que na superfície ele anoitece.
Abre na escuridão sua quermesse.
É todo fome, e eis que repele a gula.
Sua escama de fel nunca se anula
e seu rangido nada tem de prece.
Uma aranha invisível é que o tece.
O meu amor, paralisado, pula.
Pulula, ulula. Salve, […]
April 22nd, 2007 by
Pedro Sette Câmara in
Domingo com poesia
João Cabral de Melo Neto, Quaderna, 1960; em Serial e Antes. Nova Fronteira: Rio de Janeiro, 2000
Sempre que no telefone
me falavas, eu diria
que falavas de uma sala
toda de luz invadida,
sala que pelas janelas,
duzentas, se oferecia
a alguma manhã de praia,
mais manhã porque marinha,
a alguma manhã de praia
no prumo do meio-dia,
meio-dia mineral
de uma praia nordestina,
Nordeste de Pernambuco,
onde […]
April 15th, 2007 by
Pedro Sette Câmara in
Domingo com poesia
Raimundo Correia
Visões que na alma o céu do exílio incuba,
Mortais visões! Fuzila o azul infando…
Coleia, basilisco de ouro, ondeando
O Níger… Bramem leões de fulva juba…
Uivam chacais… Ressoa a fera tuba
Dos cafres, pelas grotas retumbando,
E a estrelada das árvores, que um bando
De paquidermes colossais derruba…
Como o guaraz nas rubras penhas dorme,
Dorme em nimbos de sangue […]
April 8th, 2007 by
Pedro Sette Câmara in
Domingo com poesia,
Tradução: verso
William Blake
Tradução de Vasco Graça Moura, publicada em Laooconte, rimas várias, andamentos graves (Lisboa: Quetzal Editores, 2005).
tigre, tigre, chama pura
nas brenhas da noite escura,
que olho ou mão imortal cria
tua terrível simetria?
de que abismo ou céu distante
vem tal fogo coruscante?
que asas ousa nesse jogo?
e que mão se atreve ao fogo?
que ombro & arte te armarão
fibra a […]
April 1st, 2007 by
Pedro Sette Câmara in
Domingo com poesia
Machado de Assis, em 1906
Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.
Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs o mundo inteiro.
Trago-te flores – restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora […]