Camões não é um iPhone

Se fizerem um show com todas as músicas de Noel Rosa, Tom Jobim ou Ary Barroso, eu vou e assisto dez vezes. Mas saio de lá sem achar que passei a tarde numa biblioteca. – Bruno Tolentino

Se você olhar a tal da “alta cultura” apenas como um objeto que gente mais esnobe do que você usa para… esnobar você, então realmente a primeira estratégia que o ressentimento lhe ditará será desdenhar da “alta cultura”.

Agora, essa é uma visão inteiramente paranoica. Camões não precisa ser visto como um iPhone, nem como uma bandinha de rock obscura, como algo que vai ajudar você a achar que tem mais bom gosto do que os outros. Não conheço quem fosse ficar ressentido se de repente as pessoas atentassem para a genialidade rítmica de Sete anos de pastor”. É claro que mesmo dentro dos círculos “eruditos” existe esnobismo. Vou até contar para vocês um meu esnobismo. Creio ter feito a primeira tradução de um poema inteiro de Geoffrey Hill para o português; no dia em que o “descobrirem”, vou precisar rezar muito para não fazer cara de “só agora que vocês…?” Mas esse fenômeno é igual ao da pessoa que julga conhecer, digamos, o verdadeiro funk porque vai ao baile menos frequentado numa favela que as UPPs desconhecem. É só esnobismo.

Você pode, se quiser, interpretar o mundo exclusivamente como esse jogo de esnobismo, olha, lá está o Pedro com seu monóculo, lendo Camões e tomando vinho francês, desprezando a brava gente brasileira que sacoleja – e, quer saber, sacolejar também é cultura etc. Aí você pode criar uma pose para me esnobar, chamar o consenso universitário, dizer que o desdém que você me imagina sentindo é cultura do estupro e tal.

Mas você também pode sair desse inferno kafkiano, entender que a porta está aberta e é só entrar. Sim, apreciar certas obras de arte demanda trabalho, apuro. Demanda você acreditar que é você, espectador, consumidor, que precisa estar à altura daquele objeto. Mas peraí, o negócio também não é tão complicado. Veja o soneto Sete anos de pastor. Você se informa sobre a história bíblica tão curtinha em que o poema se baseia, adquire uma noção muito básica de métrica, percebe que aquele soneto é um jeito ritmado de contar a mesma história, e pronto. Em quinze minutos você abriu as portas de preciosas obras a que podemos dar nomes que hoje soam pomposos a nossos ouvidos caipiras, como “quinhentismo português”, “classicismo português” etc.

Agora, se sua escola, em vez de lhe proporcionar isso, preferiu usar o dinheiro dos seus impostos ou da sua mensalidade para dizer que torcer o nariz para quem fala “nós vai” é coisa feia, não apenas ela abusou do seu papel como ainda tentou colocá-lo no perverso jogo do esnobismo universal, como um demônio que pretende arrastar o aluno para o mesmo inferno de onde veio.

E quanto mais bibliotecas gratuitas, mais sites, mais wi-fi nas escolas houver, maior será esse ressentimento, mais disseminada será a interpretação de tudo pelas lentes do esnobismo, porque mais tempo as pessoas preferirão passar vendo vídeos de gatos – e logo vão dizer que isso foi a mesma coisa que passar a tarde lendo Camões.

Obviedades sobre raposas preguiçosas

Nada como ler, já com o dia de trabalho um pouco adiantado, a notícia, destacada na home de um dos maiores portais do Brasil (que não deixa de ser o país dos portais), de que a primeira colocada num mestrado na UFF vai estudar o funk e uma entidade chamada Valesca Popozuda. (Foi só publicar o post que já mudaram para “segunda colocada”.)

Quem tenha feito faculdades na área de Humanas não há de espantar-se. Claro que o portal destaca isso na esperança de gerar escândalo: como assim, estão estudando o vil funk, em vez de Machado de Assis, e com o dinheiro dos nossos impostos? Francamente, até eu partilharia desse escândalo, se já não tivesse passado anos numa faculdade de Letras e não soubesse que esse tipo de trabalho é absolutamente comum.

Mas há algo sim na matéria que merece uma pequena discussão: as declarações da menina de que não existe “hierarquia” entre “alta cultura” e “baixa cultura”, a sugestão de que Valesca Popozuda e José Saramago estão no mesmo patamar.

Isso é sempre muito engraçado. Você pode dizer que Toddy é superior a Nescau, mas não pode dizer que Saramago é superior, enquanto artista, a Valesca Popozuda? Bastaria essa pergunta retórica para encerrar a discussão. O que não me impede de prosseguir, em nome de clareza.

Você pode estudar qualquer coisa e fazer abstração de um juízo de valor. É um princípio metodológico: para entender X, não vamos ficar parando o tempo todo para dizer o que é melhor ou pior. Só que você não pode, no meio do estudo, transformar o seu princípio metodológico em um princípio doutrinal, um princípio em si.

E digo que você “não pode” não como uma proibição externa, mas porque você se contradiz. Então o princípio de que não existe melhor nem pior é em si melhor do que o princípio de que existe melhor e pior? É a mesma coisa de quem diz que a verdade não existe. É verdade que a verdade não existe?

Fica muito fácil entender, assim, o que está em jogo. Você transforma o princípio metodológico em doutrina – se faz isso por má fé ou não, eu sei lá. Depois começa a dizer por aí que não há diferença entre gostar de Saramago e gostar de Valesca Popozuda, e eu só posso imaginar que você se sente esnobado pelos fãs de Saramago e, como uma raposa preguiçosa, diz que a uva da “alta cultura” estava verde.

No fim de tudo, você, com todo o pujante imaginário do cancioneiro funkeiro carioca dos últimos cinco anos (sem dúvida tão rico quanto o da literatura mundial!), ainda vai dizer que eu é que sou o esnobe, conservador, autoritário etc. por dizer essas obviedades.

E, no epílogo dessa história, eu serei apenas obrigado a dizer que a disseminação desse tipo de pensamento, que acha que funk e Saramago são a mesma coisa, está gerando uma elitização fantástica. Nunca os bens culturais estiveram tão acessíveis a qualquer pessoa, e nunca foram tão desprezados. Aliás, para ser mais exato, nunca esteve tão na moda alardear o desprezo por eles.

Caipirice & ironia

Acabo de ver um texto em que um sujeito – deliberadamente ocultarei sua identidade, mas é um professor universitário de fora do Brasil, e não é René Girard – promete que vai dar a verdadeira interpretação da Epístola de São Paulo aos Hebreus. Pasmo, pergunto-me: mas o senhor já leu os padres da Igreja? Os principais teólogos? O senhor está ciente de que existem dois mil anos de interpretação da Epístola aos Hebreus na sua frente?

Poderiam objetar: qual o problema de alguém dar a sua interpretação? Ora, o problema é justamente que essa interpretação já deve ter sido dada, e provavelmente impugnada… O que se apresenta como inédito provavelmente nada tem de inédito. Se eu chegasse aqui e dissesse que inventei o verso decassílabo, as calças compridas ou os números de páginas, o que vocês pensariam de mim?

Essa costuma ser a minha bronca com a imprensa. Assuntos complexos tratados por gente que não sabe nada, e que acha, sinceramente (porque a ingenuidade é necessariamente sincera), que é possível varrer para o lado tudo que não estiver de acordo com um consenso.

Eu sei que um dos paradoxos de hoje é que a verdade consiste em denunciar “verdades”. Mas como não perceber que o consenso da denúncia é também um consenso? Daí que eu fale em ingenuidade, em caipirice mesmo: trata-se de uma ausência de ironia. Ironia, aliás, que nada mais é do que olhar a si mesmo desde fora. Então o senhor realmente acha que, após dois mil anos, vai dar a explicação definitiva da Epístola aos Hebreus, e, mais ainda, sem fazer menção a ninguém?

Podem falar também de humildade. Mas agora vou ser forçado a ignorar o passado e tratar cada um que aparecer como a reinvenção da roda? É esse mesmo o critério? E não é Satanás quem está propondo?

O coice das “vacas sagradas”

Antes de tudo, devo dizer que, essencialmente, concordo com o Adriano. E devo dizer que até comentaria outras coisas do texto “Independência”, mas prefiro concentrar-me em alguns poucos pontos.

Meu caro Júlio, você pode dizer que “não pretende discutir” os méritos de René Girard, Eric Voegelin e René Guénon, mas ao dizer que fez parte da “turma nefasta” que os divulgou, que “[q]uem quer que tenha divulgado esses autores no Brasil fez um dano maior do que o que pensava combater”, e ao fazer, pouco antes, o seguinte diagnóstico –

“Indignados com os erros grotescos da esquerda, uma pletora de intelectuais e sub-intelectuais alternativos acreditaram ter encontrado no cristianismo (teórico) uma chave para a compreensão dos erros do mundo moderno; atraíram-se por uma espécie de teoria de tudo, capaz de se aplicar a todos os fenômenos, desenhada com suficiente sutileza e santarronice (dizem que é o que traduz melhor o termo self-righteousness). Há diferenças brutais entre esses autores — entre René Girard, Voegelin e Guénon, por exemplo, cujos méritos não pretendo discutir aqui –, mas não é difícil captar-lhes o elemento comum, já esboçado, de denúncia dos males do mundo moderno, o que costuma vir acompanhado, mesmo inconsistentemente [sic], da defesa do livre mercado (…)”

– você realmente não está discutindo os méritos desses autores. Está simplesmente, tendo “esboçado seu elemento comum”, sugerindo o seu demérito e cometendo graves injustiças com eles. Afinal, de lógica matemática eu não sei nada; mas creio que sou capaz de fazer interpretação de textos.

A obra de nenhum desses autores tem por base “um cristianismo teórico”, seja lá o que isso for. Dos três, René Girard é o único que diz ter tirado algumas de suas intuições diretamente da Bíblia, e também o único cuja obra pode ser reduzida a duas teorias fundamentais, a do desejo mimético e a do bode expiatório. Mas veja que nem mesmo livros que tratam exclusivamente de religião como O bode expiatório ou Eu via Satanás cair como um relâmpago, que considero o melhor livro de apologia indireta do cristianismo que já li, dedicam uma única linha a denunciar ou a combater “erros do mundo moderno”. Vale ressaltar que, dos três, Girard é o que tem a obra mais influente no mainstream acadêmico. Professor emérito de Stanford, membro da Academia Francesa, com livros traduzidos em diversos idiomas, citado em teses universitárias – e chega, que eu acho muito deslumbrado esse negócio de ficar enumerando credenciais.

Eu via Satanás cair como um relâmpago

De Voegelin meu conhecimento se resume a um livro que traduzi, ainda inédito, que traz sua correspondência com Leo Strauss e alguns ensaios. O que aparece ali é a mente de um investigador. Voegelin aparentemente olharia os tais “erros do mundo moderno” como um fato da vida, algo a se compreender, não a contestar com panfletos ou com golpes de erudição afetada. E é verdade que, dos três, Voegelin foi o que teve menos influência. Contudo, a admiração que Leo Strauss sentia por ela era imensa, dizendo que ele era o único que compreendia certas coisas etc. Sobre a importância de Leo Strauss, a internet está aí para as pesquisas.

René Guénon, admito, é um autor, digamos, singular. Dono de um estilo impressionante, que há anos eu mesmo chamo de “a voz da verdade absoluta”, ele realmente dedicou uma pequena parte de sua obra aos “erros do mundo moderno”. Na França, por razões que só Mark Sedgwick consegue explicar, Guénon é visto como um autor católico, de grande influência universitária. Mas é só ler sua obra para ver que ela não se baseia em cristianismo nenhum, muito menos “teórico”, e que o próprio Guénon acharia essa afirmação esquisita, para não dizer cômica.

Mas cômico mesmo é dizer que esse “elemento comum” imaginário dos três autores “costuma vir acompanhado, mesmo inconsistentemente [sic], da defesa do livre mercado”. Girard, até onde sei, fez uma defesa de 1 (huma) linha do livre mercado quando, diante de um entrevistador que veio com o velho papo de vítimas do capitalismo, respondeu que o mercado também era o sistema com o menor número de vítimas. Voegelin, pelo pouco que sei, não se interessou exatamente pelo assunto. E dizer que René Guénon fez alguma defesa do livre mercado é como dizer que a Madame Blavatsky fazia parte do IPEA.

Agora, não posso deixar de observar que existe sim um elemento comum entre “pessoas que divulgaram autores”, “René Girard”, e defesa do “livre mercado”: eu mesmo. Por isso é que estou me dando ao trabalho de escrever e de publicar isto. Se houve intenção de indireta, não sei, e tendo a crer que não. Ainda assim, há quem possa ter imaginado isso, e eu devo dizer que nunca tive uma rusga com Júlio Lemos, nem espero ter agora.

Se é verdade que “pelos frutos os conhecereis”, é fácil ver de onde vieram as injustiças do texto: da intenção declarada de “pinicar as vacas sagradas do conservadorismo”. Não é só que elas tenham respondido à molecagem com um coice. É só que, diante de um texto que diz que o “homem realista” é assim e assado, e que pretende fazer o louvor da ciência etc., faltou pegar alguma teoria de algum desses autores, algum trechinho que fosse, e discuti-los. Em vez disso, ficamos sabendo que alguém recomendou a Júlio Lemos a “suspeita sobre teorias” – a atitude típica de quem quer uma sã doutrina para viver, e que, se me permitem, é um dos males do conservadorismo – e ainda ficou fazendo fofoca sobre a vida sexual alheia. Esse fofoqueiro deve ter sido a viúva Perpétua.

Homofobia, o novo racismo

Nos anos 1990, quem era contra as cotas universitárias para negros era imediatamente tachado de racista por aqueles que eram a favor das cotas. Passou o tempo e isso mudou. Hoje muita gente é contra as cotas, e ninguém no mainstream diz que essas pessoas são racistas. Pode até haver uma acusação de racismo dirigida a esse ente vago chamado “a sociedade”, mas não há acusação de racismo direta.

O termo “homofóbico” hoje equivale ao “racista” dos anos 1990. Eu mesmo sou a favor do casamento civil gay, mas não posso ser a favor de que qualquer pessoa contrária a ele seja tachada de “homofóbica” – palavra que, aliás, nunca consegui entender. Fobia não é medo? Mas bem. Seria igualmente ridículo se eu chamasse os militantes do homossexualismo de “religiofóbicos” ou “Cristofóbicos”.

Três dias seguidos a mesma sentença – na primeira página do jornal

Num lance que, francamente, considero um dos mais cômicos desde minha alfabetização, meu querido Diário do Balneário – que também atende pelo codinome de O Globo – colocou, durante três dias seguidos, ao menos até agora, em sua primeira página – sim, na primeira página – a mesma sentença. Ei-la, senhores: “Vaticano enfraquece documento da Rio+20.”

Não, não foram informações diferentes sobre um mesmo assunto. Não foi a sequência de uma história em pleno desenvolvimento no mundo dos fatos. Foi apenas a mesmíssima sentença: “Vaticano enfraquece documento da Rio+20”. No primeiro dia, a sentença veio modalizada por um “até”. Até o Vaticano! Mas como assim? Será que o Diário do Balneário queria dizer que todo mundo foi lá e deu uma enfraquecida no documento, inclusive o Vaticano? Será que o Diário queria dar um tom dramático, shakesperiano, como alguém que perguntasse: até tu, Vaticano?

Mas o fato extraordinário – realmente um homem mordendo um cachorro – é a repetição da mesma informação na primeira página durante três dias seguidos. E a sentença se refere ao seguinte fato, também reportado no mesmo jornal: no documento final da Rio+20, em vez de aparecer a expressão “direitos reprodutivos”, aparece “saúde reprodutiva”.

Não creio que vão me chamar de louco e enraivecido especulador se eu observar que, caramba!, isso realmente deve ter incomodado alguém dentro do jornal. Terá sido um editor, um sócio talvez, que agora se sente chamado a lutar pelas grandes causas da humanidade, tendo esse sentimento sido despertado em seu peito por tão augusta conferência para a qual ele não foi chamado? Alguém que, de tanto tocar um sininho para chamar a empregada, só consegue compreender que o único mal do mundo é ter de sofrer as consequências de suas concupiscências? Ou terá sido alguma senhorita que, sendo ela própria testemunha de que a adoção das visões mais politicamente sustentáveis costuma corresponder à entrada naquela mesma elite a que pertence o editor? Esses personagens são interessantes, mesmo – e não vejo ninguém tentando retratá-los. O Brasil passa por uma troca de elites, é uma situação digna de O Leopardo de Lampedusa, e onde estão nossos romancistas?

Interessante também é que o jornal não conta como aconteceu essa pressão. É algo também muito curioso. Será que o Papa ameaçou os líderes presentes na Rio+20 com a excomunhão? Será que os líderes presentes, após uma conversão em massa ao catolicismo, quiseram mostrar serviço a seus confessores? Hoje o jornal menciona um discurso de Dom Odilo Scherer, que foi nomeado pelo Vaticano seu representante para a conferência. Se um discurso de Dom Odilo Scherer bastou para mudar um documento da ONU e para fazer os jornalistas de O Globo repetirem a sua revolta indignada por três dias seguidos na primeira página do jornal, o que posso fazer além de imaginar uma exortação digna de Jesus expulsando os demônios, que agora se contorcem confusos? Ou, se houver algum jornalista lendo este texto, será que você pode me explicar como foi que o Vaticano alterou o documento final da Rio+20?

Gracejos à parte, não é nem um pouco difícil imaginar qualquer editor explicando que, mesmo tendo repetido por três dias seguidos a mesma sentença em sua primeira página, o jornal não tem ideologia, não tem uma agenda, está apenas informando etc. etc. etc. Caro editor, você pode, dependendo da sua inteligência, ou do quanto já não distingue a sua cara da sua cara de pau, realmente esperar que os leitores acreditem nisso, o que eu julgaria algo que admira e consterna.

Por outro lado, eu mesmo creio que é preciso observar a polarização ideológica cada vez maior do Brasil. Nossas percepções da imprensa estão se americanizando, no sentido de que a ideia de um veículo vagamente neutro já não tem qualquer credibilidade, de nenhum dos lados do espectro – e, nesse sentido, a tríplice acusação de O Globo é apenas um exemplo cômico e caricato. No que diz respeito à religião especificamente, devo dizer que sou suficientemente de classe média para transitar nos extremos das classes sociais sem me impressionar tanto, e cada vez fica mais evidente que a religião hoje é quase uma coisa de pobre, algo que marca (ou estigmatiza, comme vous voulez) aqueles que têm de lutar pela sobrevivência e que os distingue daqueles que tocam sininho para chamar a empregada ou que querem vir a tocar, não importando a opinião que tenham de repetir para que isso se concretize. Estamos a um passo de pensar, como os americanos, em termos de religiosos broncos versus ateus & agnósticos esclarecidos. Que uma elite que aliena e esnoba sem peso na consciência a maior parte da população se julgue a grande defensora do povo, eis algo que, dependendo do dia, me provoca riso ou pesar, recordando-me ora Molière, ora Dostoiévski.

O dia em que a arte brasileira deixou de ser vinho

Leio agorinha à noite no jornal da manhã um texto de Bárbara Heliodora que assinala a primeira coluna jamais publicada pelo crítico de teatro Sábato Magaldi, em que ele pontificava, como tantos naquelas priscas eras de mil e novecentos e lá vai coquinho, que não havia teatro brasileiro, teatro genuinamente brasileiro! E imediatamente começo a pensar que uma das maiores conquistas intelectuais do Brasil, neste glorioso século XXI, foi que finalmente pararam com isso de querer o genuinamente brasileiro. Eis que uma parte significativa dos escritores, dramaturgos, músicos etc. convenceu-se de que o povo brasileiro é constituído de seres humanos, com capacidades cognitivas semelhantes às dos outros povos, e que portanto não é preciso reinventar a roda, nem é preciso crer que ideias como começo, meio e fim nas obras dramáticas são ideias burguesas de Aristóteles, aquele burguesão, burguesão sim! Conservador! Europeu!

Durante anos fiquei pensando que os nossos artistas de inspiração modernista e romântica apenas enxergassem o mundo pela ótica da enofilia, e vissem o Brasil como uma espécie de grande terroir. Fulano publica um romance e lá vem um genérico de Sábato Magaldi afirmar: “Não é brasileiro, isso é, não é uma expressão do nosso terroir.” (Agora, se você insistir em ter orgulho do terroir, recomendo muito que beba o espumante Cave Geisse, que é feito por um chileno, mas é feito aqui, e é mesmo muito bom.) E lá vinha a tentativa de reinventar a roda. Em última instância, o romance do fulano seria em português – uma língua europeia. Você pode falar que é outra língua, que é diferente do português europeu, mas, não sei, eu leio textos em português europeu e entendo tudo, converso com portugueses e entendo o que eles falam, não me parece que seja mesmo outro idioma. – Ah, mas tem a antropofagia do Oswald de Andrade. E eu vou confessar que já dei tratos à bola mas ainda não consegui entender em que sentido a antropofagia seria original. Será que ela não é apenas uma influência controlada? Mas não é isso que todo artista faz? (Como, aliás, o sr. Mario Geisse, o chileno do Cave Geisse?)

A quantidade de vezes que a palavra “telúrico” apareceu em textos críticos de farofal admiração também faz pensar nessa obsessão com a terra. Com o terroir. Talvez os críticos e artistas quisessem que as obras brotassem do chão. Como se Shakespeare estivesse para a Inglaterra como o jequitibá está para o Brasil. O que aliás explicaria a aspiração do Manoel de Barros a tornar-se um jequitibá. O negócio não é pensar e produzir, é brotar, é exprimir o chão.

Digam-me então que sim, existe um teatro inglês, um teatro americano, um teatro francês. Existe, é verdade. Mas ele saiu de uma obsessão com a expressão do terroir? Não. Será que Shakespeare um dia se sentou e, entre uma peça passada na Itália e outra na Dinamarca, decidiu que faria algo “bem inglês”? (Fosse esse o caso, ele teria inventado o BBC period drama.) O teatro desses lugares nasceu da atenção à sensibilidade e ao gosto dos fregueses, das classes altas e baixas, e não da atenção a um imperativo de nacionalidade apreendido ideologicamente. Nação nenhuma tem existência metafísica; nacionalidade nenhuma existe como substância anterior a seus nacionais. O que provavelmente pareceria óbvio a quem não lesse apenas a última moda de sua época.

A meia entrada, esse assunto que é um dos meus favoritos

Já comentei que a meia entrada é um absurdo que deve ser visto dentro de um contexto. Se quem produz espetáculos recebe subsídios diretos e indiretos, e pode produzir sem risco, eu na verdade me pergunto até porque é que ainda cobram ingressos. A arte brasileira não quer sair do Convênio de Taubaté.

Mas o que admira e consterna é ver gente adulta querendo dar a entender que não compreende a mais elementar das obviedades: que uma política de meia entrada terá um impacto no mercado de ingressos. Essa semana, o querido (não é ironia) Diário do Balneário falava de como os ingressos para shows no Rio de Janeiro são, veja só, os mais caros do mundo. Claro que isso em parte vem do mito de que existem preços absurdos. Você acha que um preço é “absurdo” porque desconhece a oferta e a demanda por aquele bem. Porque, como sabe qualquer pessoa que tenha de vender alguma coisa, se algum preço se mantém, é porque as pessoas estão pagando. E se as pessoas estão pagando X, por que vender por menos do que X? É por essa razão que eu sempre disse que a Apple pode fabricar iPhones a cem metros da minha casa que não vai ser por isso que eles vão mudar de preço. Grave o seguinte mantra em sua mente: preço não tem nada a ver com custo. Ou melhor, só tem a ver na medida em que, se o custo de fabricar algo é maior do que seu preço de venda, é melhor você não fabricar esse algo.

Volto à meia entrada e às ingenuidades. Claro que você pode defendê-la dentro do contexto de absurdos: subsídio pra lá, subsídio pra cá. Mesmo assim, vale a pena estudar o Convênio de Taubaté. Cai no ENEM? Enfim. Você também pode falar como um político – e quem não se lembra de Lindbergh Farias no palanque, aquele jovem demagogo? – e dizer que a meia entrada é a salvação da civilização ocidental. Que, assim, os estudantes do Brasil terão acesso à CULTURA: shows do Chiclete com Banana, da Madonna etc. No seu discurso demagogo, você, é claro, não vai tocar na questão de que, assim como uma tarifa ou uma cota interferem no preço de equilíbrio de um produto, também a política de meia entrada interfere. E se quem não lê textos de economia conhece Milton Friedman pela frase “não existe almoço grátis”, podemos reformulá-la da seguinte maneira: alguém paga por tudo que acontece. A meia entrada é só uma ilusão demagógica, na qual você acredita porque é estudante, e não existe grupo mais propenso à demagogia do que os estudantes.

Um produtor de São Paulo demonstrou, no DB, sinceridade e clareza ao dizer que os preços dos ingressos de shows internacionais são altos “porque as curvas da oferta e da demanda se cruzam muito acima”. Pode acrescentar aí a meia entrada: se é verdade que 70% a 90% dos ingressos vendidos são meia, então o preço oficial é bastante aumentado. Não é necessariamente dobrado porque o produtor poder arcar com alguma parte do aumento, embora eu ache difícil que, nesse caso…

O choramingo como valor universal

Lá estão a exigir que o Papa “exija” de Raúl Castro a libertação de todos os presos políticos de Cuba. Exigiram também que a nossa presidente Dilma Roussef fosse lá encher o saco a respeito de direitos humanos. Foge-me que alguém espere que um chefe de Estado em visita oficial vá tocar nesse tipo de assunto. Primeiro porque isso é equivalente a ser convidado à casa de alguém e dizer: “Eu sei o que você fez no verão passado.” Segundo porque é ineficaz. Se é possível creditar o chefe de Estado mais ativista da história recente, isso é, o Papa João Paulo II, com alguma eficácia, então é preciso observar que ele jamais usou a tática de bater o pé & fazer beicinho. É um tanto vergonhoso dizer, mas há outros jeitos de transmitir uma mensagem além de esfregá-la na cara do destinatário, e os meios sutis de ação também funcionam, se é que não funcionam melhor. Vamos lá, querida direita, vocês não ficam acusando a revolução gramsciana? Ao menos alguma coisa poderiam ter aprendido.

As relações internacionais são regidas (em parte) pelo princípio da não-ingerência. O Papa não vai chegar em Cuba e exigir diretamente nada, mesmo que devido, porque não lhe cabe fazer isso naquele momento. Igualmente, Raúl Castro não vai dizer: “Pô, e esse negócio de pedofilia, hein? E esses escândalos financeiros?” Igualmente, ele também não diria a Dilma Rousseff para dar uma olhada nessa história de trabalho escravo.

A declaração mais escandalosa – digamos assim – da história recente de que consigo me lembrar é o famoso discurso de Ronald Reagan em Berlim, em frente ao portão de Brandeburgo, em que ele se dirige diretamente a Gorbachev (que não era um líder alemão, mas soviético), dizendo: “Senhor Gorbachev, derrube esse muro!” (E se você tem treze anos, ele estava falando do Muro de Berlim.) Isso porque foi de um grande contra outro grande. Se a presidente fosse a Cuba fazer exigências, alguém diria que ela está bancando a valentona, ou, em porto-inglês contemporâneo, “fazendo bullying”. Até porque exigências feitas por chefes de Estado precisam ser bancadas pela força. Se o Papa demandasse a libertação de qualquer pessoa, Raúl Castro seria obrigado a recordar a famosa pergunta de Stálin: “Quantas divisões tem o Papa?”

O que me parece estar se estabelecendo é realmente a choradeira como valor universal. Espera-se que a presidente exija, espera-se que o Papa exija, espera-se que fulano se posicione, que beltrano fale. Mas e os resultados? A indignação pública contra algum mal pode não ser o meio mais eficaz de acabar com ele. No entanto, as pessoas serão hoje celebradas e receberão sua carteirinha de sócio do Clube das Pessoas Legais se baterem o pé, não se obtiverem resultados. O que, aliás, até me recorda que ninguém mais do que o então Cardeal Joseph Ratzinger contribuiu para a celeridade nos processos contra pedófilos, inclusive ordenando que fossem entregues às autoridades civis. Mas, como ele não choramingou, não fez um discursinho, você, que se diz imune ao populismo, não vai acreditar.

De Marcel Duchamp a Damien Hirst

A polêmica em torno das telas de bolinhas de Damien Hirst me faz pensar em Marcel Duchamp, aquele incompreendido. Nunca esqueço de chegar ao MoMA em Nova York e ver pessoas aglomeradas em torno de uma roda de bicicleta virada para cima. Claro que, ao ver o nome do autor, lembrei do episódio do mictório no museu, e das garrafinhas com “ar de Paris”.

Falar do mictório no museu é explicar uma piada. É óbvio que a piada diz respeito a “o que é arte” x “o que é socialmente aceito como arte”. Mas também é óbvio que, se você quiser mesmo indagar o que é arte, o melhor meio para isso é um ensaio filosófico, ou um diálogo, ou uma questão disputada. Não vou entrar nessa discussão para não me alongar e para não perder de vista o que quero dizer. Se você quer falar do que é socialmente aceito como arte, é óbvio e tautológico: é aquilo que é socialmente aceito como arte, isso é, aquilo que as pessoas falam que é arte. Por “as pessoas” você deve entender o grupo ao qual você atribui prestígio.

E é pela questão do prestígio que chegamos à questão do socialmente. Toda a sociedade é organizada em torno do prestígio. Não estou dizendo que isso é bom ou ruim, devido ou indevido, estou dizendo que é assim. Ter diploma dá mais prestígio do que não ter diploma. Ter seu livro publicado por uma editora dá mais prestígio do que publicá-lo por conta própria. Os detentores do prestígio são sempre, e por definição, os outros. Assim, quem tem autoridade para dizer que você é artista, isso é, para conferir-lhe esse prestígio? Os outros. Assim como conhecedor de um assunto é quem é formado nele, poeta é quem tem seu livro publicado.

Você acha que é imune a isso? Que nada. Você está mais disposto a olhar com bons olhos o que você nas livrarias do que aquilo que lhe chega por e-mail. Você não contrataria um engenheiro que não fosse formado para construir sua casa. E, por favor, é claro que, em última instância, isso é uma generalização. Não venha com essa de, ao ouvir que todo mundo gosta de chocolate, vir com aquela serelepice mentecapta de dizer: “Eu conheço uma pessoa que não gosta de chocolate!”

A piada de Duchamp, então, é a seguinte: vamos colocar qualquer negócio no museu, de preferência algo escatológico, para ver um bando de manés (desses que refutam generalizações) adorando o ídolo, falando que ele “levanta questões”, enchendo a boca para discursar e para filosofar etc.

A reação a isso, que hoje é amplamente conhecida como conservadorismo, tem alguma razão: é muito melhor quando aquilo que recebe prestígio parece merecê-lo. Por exemplo, quando os museus exibem obras, e não objetos cuja função é tripudiar do público. Ou quando os diplomas concedidos pelas universidades correspondem a algum conhecimento mínimo verificável. A defesa disso, quase sempre associada ao esquerdismo, é aquele elitismo inconfessado que quer dizer: “ah, deixa, vamos rir desses otários”.

(Aliás, e eis um tema a ser desenvolvido, tendo a crer que uma diferença entre esquerda e direita está nisso: a direita defende um elitismo aberto, e a esquerda um elitismo esotérico. O sentimento de superioridade da esquerda vem de ela esconder melhor o fato de praticar aquilo que condena.)

Voltando a Damien Hirst, o que sucede é bastante simples. Após um século de confusão duchampiana & prosperidade capitalista, o público está disposto a pagar bastante pelo prestígio da arte. Existe a demanda. Por que deixar de aproveitá-la?