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Archive for 'Domingo com poesia'

Há muitos assombros

March 2nd, 2008 by Pedro Sette Câmara in Domingo com poesia

Sófocles, trad. Lawrence Flores Pereira. Coro de Antígona, 332-375
Pollá tá deiná…
Há muitos assombros,
mas nada tão assombroso
quanto o homem. É ele que,
sobre o branco do mar,
por entre os vórtices das vagas,
foge ao tempestuoso vento sul.
E a maior dentre as deusas, a terra
indestrutível e infatigável, ele gasta
indo e vindo o arado ano a ano,
lavrando com a […]

In passim

November 12th, 2007 by Pedro Sette Câmara in Domingo com poesia

Bruno Tolentino, O mundo como idéia. São Paulo: Globo, 2002. p. 250

Tudo vai-se acabando, tudo passa
do que é ao que era. É tudo mais
ou menos uns vestígios de fumaça
no espaço do que deixas para trás.
E tudo o que deixaste ou deixarás
de manso ou de repente, sem que faça
diferença nenhuma no fugaz,
é assim como a garoa […]

Amor é um fogo que arde sem se ver

November 5th, 2007 by Pedro Sette Câmara in Domingo com poesia

Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
é servir a […]

Enquanto quis fortuna que tivesse

October 28th, 2007 by Pedro Sette Câmara in Domingo com poesia

Enquanto quis Fortuna que tivesse
esperança de algum contentamento,
o gosto de um suave pensamento
me fez que seus efeitos escrevesse.
Porém, temendo Amor que aviso desse
minha escritura a algum juízo isento,
escureceu-me o engenho co’o tormento,
para que seus enganos não dissesse.
Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos
a diversas vontades! Quando lerdes
num breve livro casos tão diversos,
verdades puras são […]

Foge-me pouco a pouco a curta vida

October 21st, 2007 by Pedro Sette Câmara in Domingo com poesia

Luís de Camões
Foge-me pouco a pouco a curta vida,
– se por caso é verdade que inda vivo – ;
vai-se-me o breve tempo d’ante os olhos;
choro pelo passado em quanto falo,
se me passam os dias passo a passo,
vai-se-me enfim a idade, e fica a pena.
Que maneira tão áspera de pena!
Que nunca uma hora viu tão longa […]

Vai fermosa e não segura

October 14th, 2007 by Pedro Sette Câmara in Domingo com poesia

Luís de Camões
Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura;
vai fermosa e não segura.
Leva na cabeça o pote,
o testo nas mãos de prata,
cinta de fina escarlata,
sainho de chamelote;
traz a vasquinha de cote,
mais branca que a neve pura;
vai fermosa e não segura.
Descobre a touca a garganta,
cabelos de ouro o trançado,
fita de cor de encarnado…
Tão linda que o […]

Um mover d’olhos, brando e piedoso

October 7th, 2007 by Pedro Sette Câmara in Domingo com poesia

Luiz de Camões
Um mover d’olhos, brando e piedoso,
sem ver de quê; um riso brando e honesto,
quase forçado; um doce e humilde gesto,
de qualquer alegria duvidoso;
um despejo quieto e vergonhoso;
um repouso gravíssimo e modesto;
uma pura bondade, manifesto
indício da alma, limpo e gracioso;
um encolhido ousar, uma brandura;
um medo sem ter culpa; um ar sereno;
um longo e obediente […]

Os bons sempre vi passar

September 30th, 2007 by Pedro Sette Câmara in Domingo com poesia

Luís de Camões
Os bons sempre vi passar
no mundo graves tormentos;
e, para mais m’ espantar,
os maus sempre vi nadar
em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
o bem tão mal ordenado,
fui mau; mas fui castigado.
Assim que só para mim
anda o mundo concertado.

Leitura e comentário: 3m56s

Na semana passada completei 40 domingos com poesia, e aproveito este 41o para inaugurar uma […]

O rio

September 23rd, 2007 by Pedro Sette Câmara in Domingo com poesia

Manuel Bandeira, Estrela da vida inteira.
Ser como o rio que deflui
silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas no céu, refleti-las.
E se os céus se pejam de nuvens,
como o rio as nuvens são água,
refleti-las também sem mágoa,
nas profundidades tranqüilas.

Leitura e comentário: 1m40s

Este é um dos poemas de Bandeira que mais se encontra […]

Cães a ladrar, que o caçador atiça

September 16th, 2007 by Pedro Sette Câmara in Domingo com poesia

Dante Alighieri / Tradução de Jorge Wanderley
Sonar bracchetti, e cacciatori aizzare…
Cães a ladrar, que o caçador atiça,
lebres largando, todo mundo aos gritos,
e o galgo que à coleira vai restrito
e escapa e por declives se encarniça,
são alegria, creio, que enfeitiça
o coração que é livre e sem conflito!
Mas eu, pensando amores, vou conscrito
de um amor recusado na […]

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