Camões não é um iPhone

Se fizerem um show com todas as músicas de Noel Rosa, Tom Jobim ou Ary Barroso, eu vou e assisto dez vezes. Mas saio de lá sem achar que passei a tarde numa biblioteca. – Bruno Tolentino

Se você olhar a tal da “alta cultura” apenas como um objeto que gente mais esnobe do que você usa para… esnobar você, então realmente a primeira estratégia que o ressentimento lhe ditará será desdenhar da “alta cultura”.

Agora, essa é uma visão inteiramente paranoica. Camões não precisa ser visto como um iPhone, nem como uma bandinha de rock obscura, como algo que vai ajudar você a achar que tem mais bom gosto do que os outros. Não conheço quem fosse ficar ressentido se de repente as pessoas atentassem para a genialidade rítmica de Sete anos de pastor”. É claro que mesmo dentro dos círculos “eruditos” existe esnobismo. Vou até contar para vocês um meu esnobismo. Creio ter feito a primeira tradução de um poema inteiro de Geoffrey Hill para o português; no dia em que o “descobrirem”, vou precisar rezar muito para não fazer cara de “só agora que vocês…?” Mas esse fenômeno é igual ao da pessoa que julga conhecer, digamos, o verdadeiro funk porque vai ao baile menos frequentado numa favela que as UPPs desconhecem. É só esnobismo.

Você pode, se quiser, interpretar o mundo exclusivamente como esse jogo de esnobismo, olha, lá está o Pedro com seu monóculo, lendo Camões e tomando vinho francês, desprezando a brava gente brasileira que sacoleja – e, quer saber, sacolejar também é cultura etc. Aí você pode criar uma pose para me esnobar, chamar o consenso universitário, dizer que o desdém que você me imagina sentindo é cultura do estupro e tal.

Mas você também pode sair desse inferno kafkiano, entender que a porta está aberta e é só entrar. Sim, apreciar certas obras de arte demanda trabalho, apuro. Demanda você acreditar que é você, espectador, consumidor, que precisa estar à altura daquele objeto. Mas peraí, o negócio também não é tão complicado. Veja o soneto Sete anos de pastor. Você se informa sobre a história bíblica tão curtinha em que o poema se baseia, adquire uma noção muito básica de métrica, percebe que aquele soneto é um jeito ritmado de contar a mesma história, e pronto. Em quinze minutos você abriu as portas de preciosas obras a que podemos dar nomes que hoje soam pomposos a nossos ouvidos caipiras, como “quinhentismo português”, “classicismo português” etc.

Agora, se sua escola, em vez de lhe proporcionar isso, preferiu usar o dinheiro dos seus impostos ou da sua mensalidade para dizer que torcer o nariz para quem fala “nós vai” é coisa feia, não apenas ela abusou do seu papel como ainda tentou colocá-lo no perverso jogo do esnobismo universal, como um demônio que pretende arrastar o aluno para o mesmo inferno de onde veio.

E quanto mais bibliotecas gratuitas, mais sites, mais wi-fi nas escolas houver, maior será esse ressentimento, mais disseminada será a interpretação de tudo pelas lentes do esnobismo, porque mais tempo as pessoas preferirão passar vendo vídeos de gatos – e logo vão dizer que isso foi a mesma coisa que passar a tarde lendo Camões.

Obviedades sobre raposas preguiçosas

Nada como ler, já com o dia de trabalho um pouco adiantado, a notícia, destacada na home de um dos maiores portais do Brasil (que não deixa de ser o país dos portais), de que a primeira colocada num mestrado na UFF vai estudar o funk e uma entidade chamada Valesca Popozuda. (Foi só publicar o post que já mudaram para “segunda colocada”.)

Quem tenha feito faculdades na área de Humanas não há de espantar-se. Claro que o portal destaca isso na esperança de gerar escândalo: como assim, estão estudando o vil funk, em vez de Machado de Assis, e com o dinheiro dos nossos impostos? Francamente, até eu partilharia desse escândalo, se já não tivesse passado anos numa faculdade de Letras e não soubesse que esse tipo de trabalho é absolutamente comum.

Mas há algo sim na matéria que merece uma pequena discussão: as declarações da menina de que não existe “hierarquia” entre “alta cultura” e “baixa cultura”, a sugestão de que Valesca Popozuda e José Saramago estão no mesmo patamar.

Isso é sempre muito engraçado. Você pode dizer que Toddy é superior a Nescau, mas não pode dizer que Saramago é superior, enquanto artista, a Valesca Popozuda? Bastaria essa pergunta retórica para encerrar a discussão. O que não me impede de prosseguir, em nome de clareza.

Você pode estudar qualquer coisa e fazer abstração de um juízo de valor. É um princípio metodológico: para entender X, não vamos ficar parando o tempo todo para dizer o que é melhor ou pior. Só que você não pode, no meio do estudo, transformar o seu princípio metodológico em um princípio doutrinal, um princípio em si.

E digo que você “não pode” não como uma proibição externa, mas porque você se contradiz. Então o princípio de que não existe melhor nem pior é em si melhor do que o princípio de que existe melhor e pior? É a mesma coisa de quem diz que a verdade não existe. É verdade que a verdade não existe?

Fica muito fácil entender, assim, o que está em jogo. Você transforma o princípio metodológico em doutrina – se faz isso por má fé ou não, eu sei lá. Depois começa a dizer por aí que não há diferença entre gostar de Saramago e gostar de Valesca Popozuda, e eu só posso imaginar que você se sente esnobado pelos fãs de Saramago e, como uma raposa preguiçosa, diz que a uva da “alta cultura” estava verde.

No fim de tudo, você, com todo o pujante imaginário do cancioneiro funkeiro carioca dos últimos cinco anos (sem dúvida tão rico quanto o da literatura mundial!), ainda vai dizer que eu é que sou o esnobe, conservador, autoritário etc. por dizer essas obviedades.

E, no epílogo dessa história, eu serei apenas obrigado a dizer que a disseminação desse tipo de pensamento, que acha que funk e Saramago são a mesma coisa, está gerando uma elitização fantástica. Nunca os bens culturais estiveram tão acessíveis a qualquer pessoa, e nunca foram tão desprezados. Aliás, para ser mais exato, nunca esteve tão na moda alardear o desprezo por eles.

Esperando o novo acordo ortográfico

Difícil é gostar do acordo ortográfico, e eu nunca vi uma única pessoa que o defendesse além dos gramáticos que o fizeram. É como se esses gramáticos tivessem inventado um imposto que beneficiasse o próprio ego, sabendo que, graças a uma imposição, milhões de pessoas no mundo inteiro agora poderão cometer novos erros ou policiar-se para não cometê-los. A súbita mão do fantasma oculto de Evanildo Bechara quer guiar-nos.

Eu mesmo não gosto do acordo ortográfico porque acho que a estabilidade da língua escrita é um bem que facilita a comunicação entre as gerações. Gostaria de mostrar a meus netos edições facsimilares de Os Lusíadas e deixá-los espantados com o fato de que séculos nos separam de Camões, mas não o idioma. Gostaria de não ter de “transliterar” Camões, ou de transliterar o mínimo. E se eu fosse escolher uma ortografia, seria aquela, a etimológica, que Fernando Pessoa usou para escrever Mensagem.

Também me parece evidente que não serão algumas mudanças ortográficas que vão ajudar a “unificar” o idioma. Não há como não sentir o gosto do português europeu quando lemos que alguém está a fazer alguma coisa, e não fazendo, e isso é só o começo. Há as diferenças de vocabulário – um amigo meu foi morar em Portugal quando criança e nunca se esqueceu da primeira vez que um adulto se referiu a ele como “o putinho”.

Eu trabalho com tradução e tenho de entregar meus textos com o acordo ortográfico. Comprei o corretor da Priberam e tudo bem. Mas só sei enunciar uma regra: não se acentua mais ditongo aberto em posição paroxítona. O resto é o corretor que faz. Ou então consulto o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, vulgo VOLP, vôupi (circunflexo pode?). Não posso deixar de pensar naquele diálogo de Platão (Fédon? Fedro?) em que Sócrates recusa a escrita porque vai acabar com sua memória. Nesse caso específico, eu poderia alegar que, pelo menos no que diz respeito à colocação de hífens, eu nunca jamais soube colocá-los, e não é agora que vou saber.

João Pereira Coutinho vem dizer na Folha que não se muda a língua por decreto. Mas, porém, contudo, todavia, entretanto, digo eu que se muda sim, e eis a experiência a demonstrá-lo amplamente. As editoras adotam o acordo, a imprensa adota o acordo, os concursos públicos adotam o acordo (e o brasileiro que não escreve profissionalmente só escreve em prova de concurso), o ENEM adota o acordo e por isso a escola adota o acordo etc. etc. etc. É duro admitir, mas a maleabilidade da língua portuguesa no Brasil a decretos está intimamente ligada à fraqueza da sociedade civil.

Complemento ainda com o seguinte, que já devo ter dito por aqui. Você entra numa Faculdade de Letras e lá estão os linguistas. Há lá os linguistas que só estudam as estruturas e o uso e tal, e são gente boníssima. Nunca falam da prescrição gramatical e aprendi um bocado com essas pessoas, que me mostraram que o que Chomsky tem de palhaço falando de política, tem de gênio falando de linguagem. Mas há também um bom grupo de professores que passam o dia falando mal da Nomenclatura Gramatical Brasileira, vulga NGB, e do ensino nas escolas. Ora, a NGB foi instituída por uma portaria do então Ministério da Educação e Cultura em 1959. Logo, a questão é de fato jurídica. Claro que alguém pode se perguntar se é função do Estado decidir regras de acentuação ou definir o que é um substantivo, mas isso, enfim, é uma questão de como as coisas deveriam ser, e não de como elas são.

Então, como diriam os paulistas, esses professores que só fazem falar mal da NGB (e eles nem estão errados no que dizem) também fazem outra coisa, que é falar de como as coisas deviam ser. E esse processo já deve ter algumas décadas. O establishment linguístico, digamos assim, não tem defensores ideológicos, não tem seus intelectuais orgânicos. Quem dá aula em cursinho e ensina a língua tal como cobrada em provas também tem lá suas críticas e não fala disso porque, bem, ganha-se por hora, e se o aluno fosse fazer Letras não precisava de cursinho.

Esses professores ainda não estão satisfeitos com o acordo atual. Eu sei que antes de morrer verei novas modificações. Há quem queira acabar com todos os acentos, há de tudo. O mesmo fantasma que há alguns anos subitamente lançou sua mão voltará, apenas com outro nome. Não se trata, como falei, de um fantasma oculto, mas de um espírito de permanente reforma, animado por aquele progressismo ressentido que acha que a “ciência” é a maneira mais elegante de esconder uma sensibilidade pobre e a sensação de estar “excluído”, mesmo que o governo dê escola, professor, lanche e transporte. Só não dá – espero que alguém se eleja prometendo isso! – a vontade de estudar e de passar mais tempo na biblioteca do que na cantina.

O livreiro e o crítico

Quem faz faculdade de Letras descobre que um dos principais problemas do ensino é a perpetuação da confusão entre um princípio metodológico – a abstração do juízo de valor – e uma afirmação de fato – tudo tem o mesmo valor. Isso é, se a a Linguística considera que o português escrito por Machado de Assis e aquele usado nas letras de funk tem o mesmo valor para que se entenda o “sistema” da língua, então a faculdade de Letras conclui que todos os registros têm o mesmo valor, e eu não queria parar a argumentação agora para sugerir que se escreva um livro de Linguística com o português das letras de funk. Analogamente, as obras literárias também são analisadas segundo as suas características estruturais e temáticas, sem que ninguém se pergunte se X é melhor do que Y, e por quê. Isso, em parte, explica a leitura de tanta porcaria contemporânea na gradução. Uma faculdade de Letras deveria formar linguistas ou críticos literários, ou pelo menos desenvolver nos leitores algum potencial crítico; a postura científica de “neutralidade” está formando livreiros teóricos, pessoas que seriam capazes de descrever as obras mas que não se atreveriam a responder a temível pergunta: dado que vamos morrer e que o tempo é curto, em que devo investir meu tempo e minha atenção?

Aqui chegamos no outro extremo. O crítico, quer ele queira, quer não, é uma espécie de corretor do prestígio das obras. O crítico ocupa lugares de prestígio na sociedade e suas palavras serão ouvidas. Adotar a postura “científica” é evitar a pergunta fundamental. Claro que você pode ser até contra essa pergunta fundamental. Você pode achar que cada um deve decidir o que ler, e fazer suas próprias escolhas, sem perceber que isso é uma mentira existencial, porque você pegou essa ideia de uma bibliografia selecionada por alguém de prestígio num lugar de prestígio (um professor na universidade). Sem contar que abdicar desse papel é propor que cada um refaça o percurso coletivo de toda a humanidade. E mesmo que você pegue as pessoas que aparentemente refizeram esse percurso, como Harold Bloom e Umberto Eco, elas não chegaram a conclusões muito diferentes das do cânon “oficial”.

No Brasil, de fato, ficamos divididos entre dois extremos. O jornalismo literário não é exatamente grande coisa. Não me recordo de ter lido muitas resenhas negativas, para começar. Mesmo as resenhas positivas se limitam a mimetizar o estilo acadêmico, falando das características das obras e não de seu possível proveito. A crítica acadêmica é essencialmente ilegível e fala de literatura como um físico falaria a seus pares, sem preocupação com a inteligibilidade extramuros. Sugerir que a literatura se refere a algo no mundo e que vale a pena discutir essa relação é uma espécie de heresia. Mas o leitor está no mundo. Até os outros textos estão no mundo. A faculdade pode achar que um texto se refere a outro texto se refere a outro texto se refere a outro texto, mas estamos todos no mundo, leitores e textos.

Lamento muito tudo isso. Acho que os principais livros da minha vida foram livros de crítica literária, e, destes, os únicos em português foram pequeninas obras de Manuel Bandeira. Hoje em dia diriam tratar-se de impressionismo. Esses livros me levaram a outros, de crítica e de poesia. A crítica poderia servir para isso, para educar o gosto e por meio do gosto a própria pessoa. É preciso possuir certas qualidades para ser tocado por certos livros; o crítico poderia dar dicas de como se tornar capaz de apreciá-los, e isso não seria tão diferente de um crítico de vinhos que sugerisse prestar atenção em certas características. Atenção, aliás, é uma palavra fundamental. Significa tanto olhar numa certa direção quanto olhar por um certo tempo. E ficar parado, concentrado, não é uma coisa má. Depois, pensar na experiência. Fazer com que as ideias fiquem enraizadas na experiência, levando os leitores a entender por que gostam disso ou daquilo. E não simplesmente agir como um livreiro que fosse capaz de organizar todas as estantes sem estabelecer uma relação pessoal com obra nenhuma.

Da pose à piada pronta

Acompanhei por alto as discussões sobre Oswald de Andrade inspiradas pela FLIP. E fico impressionado, mas talvez só porque, desde o fim da faculdade, vivo cá no meu assento etéreo, lendo apenas o que me apetece.

Primeiro, parece que toda a discussão literária no Brasil é uma discussão de pose. Ou, se você preferir, de postura, de atitude. O escritor deve ser assim, deve ser assado. Porque é preciso fazer uma literatura assim, ou assado. Uma literatura que seja nacional, original, espontânea, atenta às influências mas sem perder autonomia, criativa, mágica, insubmissa, inteligente mas sem pedantismos e, é claro, transgressora. Não sei como ninguém percebe que o Ministério da Educação é a síntese suprema da ideia mesma de establishment, e que todos os professores do Brasil elogiam a transgressão. Eu nunca vi um professor elogiar um autor porque ele respeitou o cânone de sua época como ninguém e agradou a todos. Não perceber que a consequência lógica de o establishment elogiar ininterruptamente a transgressão é fazer da ideia de transgressão o centro do conservadorismo é só o começo do problema de uma zelite acadêmica que só conhece as palavras e nunca viu as coisas. Não é à toa que hoje mesmo no suplemento literário do Diário do Balneário as pessoas estão lá discutindo o que é transgressão. Se todo mundo quer transgredir, não há transgressão, ué. E se está todo mundo tentando transgredir, nem dá para ser conservador direito também. Você tem de simplesmente se afastar e buscar suas referências naquele lugar da universidade que só é frequentado pelos concurseiros que nem sequer estão matriculados ali: a biblioteca. Eu acredito, por exemplo, que a melhor poesia feita hoje no Brasil, poesia excelente mesmo, passa totalmente ao largo da discussão literária acadêmica ou jornalística.

Primeiro de novo, é esse o legado de Oswald de Andrade e do Modernismo de 1922. Os melhores poemas modernistas não estão ligados à Semana de Arte Moderna. Aliás, nem os poemas mais conhecidos estão ligados à Semana. A Semana de Arte Moderna Contada nas Escolas é uma narrativa para agradar adolescentes, uma espécie de Cinderela das letras:

Era uma vez uma sociedade conservadora e empolada. Então apareceu um grupo de amigos do barulho, cheio de ideias novas e transgressoras: os modernistas. Os burguesinhos torceram o nariz. Mas foram vencidos pela esterilidade de suas próprias ideias e inevitavelmente deram lugar à novidade e ao vigor da juventude.

E neste momento o aluno adolescente liga as pontas sem perceber: a professora está contando essa história porque eles venceram mesmo, e o bom é ser jovem e transgressor e buscar a novidade.

Primeiro de novo de novo, é uma zelite acadêmica que olha tudo como pose, mas que não considera a própria pose; que acusa os outros de não estar cientes do seu lugar no mundo, sem jamais se considerar culpada dessa acusação. Na minha experiência, porém, o mais comum é sermos nós mesmos culpados daquilo de que mais acusamos os outros. E isso também vale para os nossos conservadores de internet: gente que sequer leu Machado de Assis e cujo monolinguismo funcional melhor seria chamado de meiolinguismo cultural não consegue dormir por causa da decadência das coisas. Você não “combate a ignorância” reclamando na internet. Isso você faz calando a boca e lendo um livro. E fazendo um esforcinho para entender alguma coisa.

O mais irônico é que dois poetas que certamente estão entre os cinco (ou três, ou até dois…) maiores da língua, Camões e Fernando Pessoa, não tentaram ser transgressores. Os dois fizeram o que podiam para atender ao gosto da época e não conseguiram entrar na turma das pessoas chiques. Até poemas elogiando o governo eles escreveram. Isso deve servir para mostrar que buscar a transgressão não garante nadinha, e que para fazer parte do grupo das pessoas chiques é mais importante já ter nascido dentro dele, ou aprender a imitar seus trejeitos, do que se esforçar para escrever boa literatura. Quer dizer, a mera ignorância desse detalhe, que ajudaria a aguçar a autoconsciência, mostra o quanto a ideia da Semana de 1922 impregna a produção crítica e literária.

Ou, resumindo tudo, a Semana de 1922 devia ser entendida como uma espécie de peste mental, que vai transformando os contaminados em piadas prontas involuntárias.

A socialização do prestígio & a elitização sem precedentes

Vamos imaginar que a ideia de educação universal começou com a premissa de que todos deveriam ter acesso aos tesouros da humanidade. Vamos só imaginar, porque essa premissa é completamente falsa: a educação universal é um projeto do Estado-nação moderno, voltado para a competitividade e para a padronização; a educação universal é o paralelo pedagógico da Revolução Industrial.

Aquela premissa, porém, é o que nominalmente anima os burocratas e os educadores. O leitor pode chocar-se, pensar que não, que efetivamente anima, mas eu digo que não, e dou minhas razões. Fiz faculdade de Letras, e posso garantir que metade da faculdade foi dedicada à crítica do “ensino nas escolas”, da “gramática tradicional” e ao combate ao famoso “preconceito linguístico”. O que está por trás disso é o seguinte: não gostamos da gramática, não queremos ofender ninguém, então vamos dizer que a cultura de todo mundo é igualmente boa. Assim, você, que achava que ia para a escola para aprender a conversar com Fernando Pessoa, com Machado de Assis, agora não vai aprender nada, exceto que conversar com o Zé das Couves é tão bom quanto conversar com Fernando Pessoa e com Machado de Assis. E, se você achar que não, bom, você é elitista, você está eivado de preconceito linguístico.

Admirar Fernando Pessoa e Machado de Assis é difícil. É difícil, em primeiro lugar, porque muitos de seus textos são densos. Mensagem exige conhecimento da história portuguesa e intensidade reflexiva. Como explicar versos misteriosos como “Os deuses vendem quando dão”? Por que “o mito é o nada que é tudo”? Machado, em grande parte, exige uma certa maturidade, uma capacidade de olhar para si. Bentinho não é muito melhor nem muito pior do que a maioria de nós, e Dom Casmurro é muito mais do que o possível adultério de Capitu: seguindo uma dica de Antonio Fernando Borges, que, sem saber, guiou minha última leitura do romance, há um ano, percebi que o livro é proustiano antes de Proust, que é uma piada amarga a respeito da seletividade da memória, sem no entanto deixar de despertar compaixão no leitor. O único problema de dar Dom Casmurro para adolescentes é que esse tipo de livro só costuma ser devidamente apreciado quando já é tarde demais e já se sente alguma identificação com o narrador…

Mas, como bom brasileiro, divago. O que quero dizer é que o trabalho intelectual, como todo trabalho, dá preguiça, e olha eu sendo um clichê de brasileiro de novo. Junte à preguiça o fato de que gente de prestígio internacional, como Paulo Freire, vem sugerir que aquilo que você já tem é no mínimo tão bom quanto aquilo que você poderia ter e que os outros, aquela odiosa e opressora elite, já têm. Isso ativa a sua inveja. Então é possível ser tão bom quanto a elite sem fazer nada? Note-se que isso é uma concepção paranoica e equivocada da elite, mas que é comum. Já disse isto no passado: ao frequentar a UFRJ, que tem pessoas das mais diversas camadas sociais, descobri que os mais pobres julgam que os mais ricos leem Machado de Assis como quem folheia uma revista Caras, o que me dava ganas de dar aos meus interlocutores tapinhas condescendentes nas costas. Nossa elite econômica é quase tão inculta quanto seus empregados.

A ideia de educação foi assim contaminada pela preguiça e pela inveja. Nessa disputa de classes, porém, só há perdedores. Primeiro, porque é só um lado que está lutando. Hoje em dia, a elite já manda os filhos estudarem fora do Brasil, ou em escolas americanas e britânicas, ou em escolas que habilmente vão ignorando a correção política e que custam pequenas fortunas. Por outro lado, aqueles indivíduos que são efetivamente movidos pela curiosidade intelectual e que têm grande inteligência existem em todas as classes e progridem a despeito do meio, sempre. Talvez pudessem progredir mais, mas não é um professor dizendo que “nós vai” é apenas um registro sem prestígio por causa da dominação classista que vai impedi-los. Assim, o desejo de uma classe acadêmica e burocrática preguiçosa e invejosa de obter para si o prestígio que julga que uma certa elite possui acaba levando a uma elitização sem precedentes: se você não tiver a sorte de nascer pelo menos nos estratos superiores da classe média, ou de nascer dotado de inteligência e motivação, ou de preferência os dois, pode pelo menos agradecer ao burocrata que inventou a tal da aprovação automática.

Enquanto isso, podemos assistir ao distanciamento cada vez maior entre língua escrita e língua falada; ao uso cada vez mais amplo do pronome “que” sem qualquer preposição (“a pessoa que eu fui na palestra que eu fui”, isso é, “a pessoa com quem eu fui na palestra a que eu fui”), e a tudo aquilo que já faz do português culto um idioma verdadeiramente esotérico, ao menos no Brasil. O bom uso do idioma tornou-se uma qualidade tão rara que, na minha experiência, é usada até como critério de atratividade sexual por algumas mulheres.

Ministério da Educação, Kulturkampf fracassado

Mais uma vez, reflexões de orelhada, quiçá uma sugestão de pauta para um artigo que não escreverei porque estou muito ocupado com coisas fantasticamente interessantes.

Semana passada surgiu a gritaria do livro com erro de concordância — “nós pega” — recomendado pelo Ministério da Educação. Tendo a crer que a ofensa nasce daquele sentimento que todo brasileiro com diploma tem de que é superior a seu porteiro porque não comete erros básicos de ortografia, de regência e de concordância. É seu tesouro de semiletrado distinguir-se dos iletrados. Os barbarismos e a prolixidade são considerações para pessoas malignas como eu, mais metidas ainda, e por isso sumamente odiadas (os porteiros são desprezados, o que é diferente).

Agora, antes de tudo, recuso terminantemente a discussão da gramaticalidade da forma “nós pega”. É gramatical em sentido linguístico, descritivo, e agramatical em sentido prescritivo, normativo. Eis o fim da discussão. Aceitar que o critério linguístico se sobreponha a outro é tão arbitrário quanto defender que se ande sem roupa nenhuma em dias de muito calor. Ou melhor: aceitá-lo é atribuir a um suposto consenso científico o papel de guia da sociedade. Os hierofantes de jaleco. Para quem curte o STF babando sobre afetividade numa questão pública, até entendo. Ao ver a figura de autoridade sancionando aquilo que até então distinguia os santos dos pecadores, você pode sentir o que eu sinto quando vejo uma bateria dentro de uma igreja. Mas o fato é que ninguém realmente recusa padres, só muda de padres, ou finge que não os tem, mas tem de qualquer jeito.

Não que não haja razão para escândalo. Mas mesmo assim, vejamos. Que é um Ministério da Educação? É Kulturkampf, projeto de unificação nacional por meio da uniformização. E hoje queremos ser democráticos e inclusivos etc, fazendo uma paradoxal uniformização pluralista. Não é a sociedade que é plural e que encontra um terreno comum numa norma gramatical, é o governo que usa a força física para acirrar essa pluralidade, para balcanizar mesmo. Mas esse projeto não nasce com o politicamente correto recente, e sim com o projeto modernista encampado por Vargas. Palhacitos mil ficam a bradar embriagados o verso em que Mário de Andrade fala da “contribuição bilionária de todos os erros”. Kulturkampf modernista é isso aí. O livro com erro do MEC é sintoma, não é a doença. Mas assim caminhamos, querendo uma tirania light (ou nem tanto), da qual só reclamamos quando ela não está a nosso favor.

Eu creio que podemos ter uma bela ideia de qual foi a contribuição bilionária de todos os erros. O Brasil tem coisa de 190 milhões de pessoas, não é mesmo? Dixit Censo 2010. Não consegui encontrar o número de pessoas com nível superior, mas diz o Guia do Estudante que em 2010 tínhamos 5,8 milhões de pessoas matriculadas na universidade. As universidades particulares proliferam, aumentam seus corpos discentes. E ainda teríamos de ver quantas pessoas completaram o segundo grau, ou ensino médio, ou o que for o nome atual daquilo que nos EUA há bastante tempo se chama high school. Diante dessas brevíssimas considerações, qual o resultado do Kulturkampf de décadas do nosso Ministério? Que o brasileiro nunca jamais se habituou a procurar livros como fontes de entretenimento ou de informação. Se você estiver disposto a ficar deprimido, convido-o a conhecer o mercado editorial brasileiro visitando a lista semanal de mais vendidos da Publishnews, que nem traz números de livros para concursos, religiosos cristãos, e espíritas. É verdade que, na lista mais recente, o primeiríssimo lugar é um livro religioso, do Pe. Marcelo Rossi, mas na verdade é um livro de uma celebridade, cuja fama vai muito além do mercado editorial, e que o volume é vendido fora de livrarias. Veja a diferença para o segundo lugar. Agora vou contar uma coisa: eu já vi uma semana em que o livro mais vendido do Brasil ficou em 853 exemplares. Isso, não faltou nenhum zero não. 853. Medite: 190 milhões de pessoas, 5,8 milhões de universitários, 853 livros.

Agora eu vou recomendar vivamente que você feche a janela e chame alguém para ficar por perto, com um leque, com um copo d’água. Os Estados Unidos têm 309 milhões de pessoas, pouco mais do que um Brasil e meio. Os universitários matriculados eram 14,3 milhões segundo o censo americano de 2009, ou pouco menos do que 2,5 vezes o número de universitários brasileiros. Vamos ver os números do mercado editorial? Tudo bem, eles vão assustar também porque vêm em dados anuais, mas veja só o quanto venderam em 2010 os livros de capa dura, os livros de capa mole, os e-books e os livros infantis. Eu nem vou colocar os dados aqui, porque comentá-los demandaria muito tempo.

Depois dessa, boa tarde.

Minha enésima vituperação contra o modo como o Ministério da Educação vilipendia a língua portuguesa


Você está vendo esse livro? Ele não teve revisor. Não consta nos créditos. E isso é deveras perceptível. Um livro excelente, soterrado pelo péssimo uso do português.

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A impressão que tenho, francamente, é que algo entre 99% e 99,9% dos livros brasileiros de direito e economia — escritos originalmente em português ou traduzidos — foram escritos por pessoas cuja cultura começa e termina no Sony Entertainment Television e cujo uso do português se resume aos rápidos contatos com garçons. O português não é língua de cultura da elite cultural do Brasil, e isso é deveras evidente. O português é só uma língua que se fala por um acidente comezinho do dia-a-dia.

Digo-vos, senhores, quem é o culpado; o culpado mesmo, não um mero bode expiatório. O culpado é o Ministério da Educação. Primeiro inventa-se que a criançada tem de saber distinguir entre um completivo nominal e um adjunto adnominal; que é preciso saber classificar uma oração subordinada reduzida de gerúndio (e se vocês soubessem que cousa simples está ocultada por esse termo técnico pomposo…); faz-se provas pedindo mil e uma classificações. O problema, é claro, é que a inteligência não opera sobre o vazio. Quando eu, já burro e velho, efetivamente aprendi essas coisas, foi junto com o grego (se você chegou agora, formei-me em grego antigo na UFRJ — na tenra idade de 33 anos) e junto com mil teorias de sintaxe, algumas realmente fascinantes. E eu já tinha traduções publicadas, já tinha lido todos os romances de Machado, a obra de Camões e muito muito muito mais. Repleta de exemplos, minha inteligência captou algo.

Mas aquele “primeiro” do parágrafo anterior pede um “segundo”, e lá vai: uma discussão como a do “preconceito linguístico” peca muito mais por sua extemporaneidade do que por sua estupidez intrínseca. Estupidez intrínseca porque, bem, todo mundo discrimina todo mundo segundo algum critério. Não gosto de quem não se preocupa em falar bem, ou pelo menos claramente. Se você acha que a cortesia de se fazer entender pelos outros é opressão burguesa, obrigado, nossa conversa acabou. E se você não vê o mais mínimo bem em poder falar com Camões, Fernando Pessoa, Machado de Assis, Gonçalves Dias etc., não tínhamos assunto mesmo. Passando à extemporaneidade, lá vai: essa discussão só agrava o erro inicial, que é presumir que existe alguma necessidade fundamental em dominar regras de gramática de maneira explícita e autoconsciente. Eu penso na teoria que diz que a preposição é o núcleo do sintagma preposicional toda vez que faço o paralelismo da preposição, mas discriminar um economista por não saber do que estou falando seria tão injusto quanto ele me discriminar por eu não saber o que é Curva de Philips (mas eu sei). Em suma, enfatizar tanto a gramática é tão imbecil quanto ficar reclamando dela. O efeito das duas atitudes é o mesmo: as pessoas falam e escrevem como se nunca tivessem conhecido a língua portuguesa.

Solução? Não sou a favor de grandes métodos obrigatórios, mas é difícil não observar que aumentar as aulas de literatura e de redação e diminuir — sim, isso mesmo, diminuir o número de aulas de gramática é fundamental. Nem que seja para acabar com esse negócio de qualquer palhaço vagamente letrado ficar corrigindo a ortografia alheia e se achando o Alexandre Herculano do Baixo Grajaú. Sem contato com a língua, os economistas continuarão escrevendo como economistas, e os advogados como advogados, e estou dizendo isso porque não consegui pensar num insulto pior. Se você é a exceção, então deve ser inteligente o bastante para saber que esse texto não se dirige a você. Ou se dirige também: se você gosta do português, contribua para acabar com o monopólio do Ministério da Educação, que só dá a seus súditos uma mistura sórdida de papinha literária de letrinhas de música e regras gramaticais que ajudam tanto a falar e a escrever bem quanto uma aula de Física ajuda a andar de bicicleta. Quer dizer, se você já for muito bom, essa aula pode até te deixar melhorzinho. Mas é só.

As más consequências das boas intenções do ministro da Educação

Então Fernando Haddad, o ministro da Educação que jamais teria sido poupado pela esquerda se fosse do PSDB, vem propor um ensino médio em tempo integral, com conteúdos profissionalizantes, “porque muitos deles [alunos] precisam de uma profissão, em função das condições socioeconômicas da família”.

Sem sequer entrar no mérito da proposta, vamos tirar suas consequências mais óbvias. O que vou dizer é básico demais. Dá até uma certa vergonha. E não é ideológico, aliás. Não é uma questão de como as coisas deveriam ser.

Digamos que no início de um ano letivo o ministro da Educação venha todo feliz e serelepe dizer que tantos milhões de jovens entraram nos cursos profissionalizantes, e que desses milhões, algumas centenas de milhares escolheram ser eletricistas. Isso quer dizer que ao fim de um ano ou dois o mercado subitamente terá mais algumas centenas de milhares de eletricistas. O preço dos serviços de eletricistas vai baixar. Algum sindicato vai reclamar. Podem surgir tabelamentos de preços. Podem surgir exigências burocráticas que sirvam de barreiras de entrada à profissão. Os garotos que estudaram dois anos para ser eletricistas podem subitamente descobrir que só têm a opção de trabalhar no mercado informal ou esquecer tudo o que aprenderam. Uma boa parte deles certamente vai para o mercado informal. Os preços tabelados ou “sugeridos pelo sindicato” vão parecer estratosféricos e irreais. Vai valer a pena contratar um garoto, mesmo que seja ilegal. Quem vai fiscalizar isso?

A fórmula é a seguinte: muita educação + pequeno mercado de trabalho = astrofísico dirigindo táxi para ganhar a vida.

Agora sim eu vou dizer como as coisas deveriam ser. O governo deveria flexibilizar, e muito, as leis trabalhistas. Deveria permitir o acesso de mais pessoas ao mercado de trabalho. A experiência de outros países já mostra que, diminuindo impostos e burocracias, a base de arrecadação aumenta e com isso a própria arrecadação, em números absolutos. O governo pode fazer o que quiser com o dinheiro: pagar diárias de motéis ou “construir escolas e hospitais” (sinto uma lágrima furtiva escorrendo sempre que penso naqueles sonegadores perversos que “impedem o governo de construir escolas e hospitais”). Todo mundo fica feliz.

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Já que estou falando de trabalho, ontem mesmo eu li uma matéria no City Journal sobre como a legislação americana bloqueia o microempreendedorismo, ou o trabalhador individual da informação, entre outros. Como eu mesmo. E muitos dos meus amigos, que somos pessoas que ficam em casa trabalhando. Se alguma cidade criasse legislação específica para nós, com baixos impostos, poderia ver sua arrecadação aumentar. Porque, caramba, atualmente eu preciso de um alvará da prefeitura para me sentar no meu próprio computador e traduzir. Francamente, se isso não parece errado, e maligno, então não sei nem por onde começar a argumentar.