De Marcel Duchamp a Damien Hirst

A polêmica em torno das telas de bolinhas de Damien Hirst me faz pensar em Marcel Duchamp, aquele incompreendido. Nunca esqueço de chegar ao MoMA em Nova York e ver pessoas aglomeradas em torno de uma roda de bicicleta virada para cima. Claro que, ao ver o nome do autor, lembrei do episódio do mictório no museu, e das garrafinhas com “ar de Paris”.

Falar do mictório no museu é explicar uma piada. É óbvio que a piada diz respeito a “o que é arte” x “o que é socialmente aceito como arte”. Mas também é óbvio que, se você quiser mesmo indagar o que é arte, o melhor meio para isso é um ensaio filosófico, ou um diálogo, ou uma questão disputada. Não vou entrar nessa discussão para não me alongar e para não perder de vista o que quero dizer. Se você quer falar do que é socialmente aceito como arte, é óbvio e tautológico: é aquilo que é socialmente aceito como arte, isso é, aquilo que as pessoas falam que é arte. Por “as pessoas” você deve entender o grupo ao qual você atribui prestígio.

E é pela questão do prestígio que chegamos à questão do socialmente. Toda a sociedade é organizada em torno do prestígio. Não estou dizendo que isso é bom ou ruim, devido ou indevido, estou dizendo que é assim. Ter diploma dá mais prestígio do que não ter diploma. Ter seu livro publicado por uma editora dá mais prestígio do que publicá-lo por conta própria. Os detentores do prestígio são sempre, e por definição, os outros. Assim, quem tem autoridade para dizer que você é artista, isso é, para conferir-lhe esse prestígio? Os outros. Assim como conhecedor de um assunto é quem é formado nele, poeta é quem tem seu livro publicado.

Você acha que é imune a isso? Que nada. Você está mais disposto a olhar com bons olhos o que você nas livrarias do que aquilo que lhe chega por e-mail. Você não contrataria um engenheiro que não fosse formado para construir sua casa. E, por favor, é claro que, em última instância, isso é uma generalização. Não venha com essa de, ao ouvir que todo mundo gosta de chocolate, vir com aquela serelepice mentecapta de dizer: “Eu conheço uma pessoa que não gosta de chocolate!”

A piada de Duchamp, então, é a seguinte: vamos colocar qualquer negócio no museu, de preferência algo escatológico, para ver um bando de manés (desses que refutam generalizações) adorando o ídolo, falando que ele “levanta questões”, enchendo a boca para discursar e para filosofar etc.

A reação a isso, que hoje é amplamente conhecida como conservadorismo, tem alguma razão: é muito melhor quando aquilo que recebe prestígio parece merecê-lo. Por exemplo, quando os museus exibem obras, e não objetos cuja função é tripudiar do público. Ou quando os diplomas concedidos pelas universidades correspondem a algum conhecimento mínimo verificável. A defesa disso, quase sempre associada ao esquerdismo, é aquele elitismo inconfessado que quer dizer: “ah, deixa, vamos rir desses otários”.

(Aliás, e eis um tema a ser desenvolvido, tendo a crer que uma diferença entre esquerda e direita está nisso: a direita defende um elitismo aberto, e a esquerda um elitismo esotérico. O sentimento de superioridade da esquerda vem de ela esconder melhor o fato de praticar aquilo que condena.)

Voltando a Damien Hirst, o que sucede é bastante simples. Após um século de confusão duchampiana & prosperidade capitalista, o público está disposto a pagar bastante pelo prestígio da arte. Existe a demanda. Por que deixar de aproveitá-la?

Obras de arte: alimento, remédio ou veneno

Este texto foi parcialmente inspirado por isto.

Quero falar sobre a questão do julgamento moral das obras de arte, mas antes preciso confessar que não sei se entendo bem a ideia de moral. Claro que entendo a ideia de moralismo, que seria o estabelecimento de um limite aparentemente arbitrário para as ações humanas. “Daqui não passarás.” Mas por quê? O que há do outro lado? O mundo mágico das pessoas esclarecidas? É fácil ver que o moralismo e o antimoralismo são duas posições igualmente pueris. Agora, isso não ajuda muito em relação à moral.

Pelo pouco que consigo vislumbrar, a moral está relacionada a certas concepções antropológicas, cosmológicas e teológicas, que todos temos; lembrando que o ateísmo é uma concepção teológica. Dado que o homem é x, que o cosmos é y, e que Deus (ou qualquer instância sobrenatural) é z, segue-se que a melhor maneira de agir é w. E no entanto não consigo não enxergar um certo aspecto utilitarista na ideia de moral. Se o tabuleiro é de um jeito, há um jeito de jogar que é vencedor, e outro que é perdedor. Claro que você pode questionar o sentido de vencedor e de perdedor, mas acho que não haveria disputa quanto a essa formulação, que pode ser expressada tanto na forma de “se o cristianismo é verdadeiro, é bom que nos sacrifiquemos pelos outros” e “se Deus não existe, o prazer, sensível ou intelectual, é o melhor bem a que podemos aspirar”.

Pior ainda, mesmo os dez mandamentos parecem-me ter um caráter utilitário. Por favor, não me condenem por dizer isso: vejam que digo que me parecem. Como entender algo como “não roubarás” sem um caráter utilitário se não consigo ver um fundamento metafísico da propriedade? Nada me liga a meu computador além de um complexo aparato social que gera nas pessoas a expectativa de sofrer violências se entrarem na minha casa e tirarem meu computador. Entendo que em última instância se chega a um fundamento metafísico: sofrer a violência é um mal, porque sobreviver, de modo saudável, é um bem; daí decorre que tudo que concorra para a sobrevivência saudável das pessoas é um bem. Mas isso não cria um elo metafísico entre mim e meu computador. Se ele fosse destruído, eu continuaria igual. Tanto é que já dei e já vendi computadores sem que nada me acontecesse.

Creio que minha inteligência é, ou tornou-se, de tipo trágico. Fico me perguntando o que acontecerá se fizermos isso ou aquilo, e tenho interesse por desejos paradoxais. Um desejo paradoxal, por exemplo, é o desejo de manter a atual estrutura jurídica e proibir o casamento gay. Uma vez que o Estado brasileiro liga o casamento a diversas interferências no direito de propriedade (como a inclusão de dependentes para fins tributários, as modalidades de pagamentos de planos de saúde etc.), não dá para defender a lei tal como ela existe, e também defender o mandamento que diz “não roubarás”, e ser contra o casamento gay. Ele decorre da lei. Ele é uma interpretação mais justa da lei do que subordinar o direito de propriedade à heterossexualidade. Agora, muitos gays também não querem aquilo que resolveria a disputa de maneira pacífica, que seria retirar o Estado da questão do casamento. Essa solução seria o equivalente a um pai retirar de cena um brinquedo que é motivo de briga entre seus filhos, porque os gays militantes querem aquilo que os heterossexuais têm, ou que eles imaginam que os heterossexuais têm, e por isso não querem que o brinquedo saia de cena a fim de garantir a paz. Eles querem o brinquedo para si, porque sabem que, para um heterossexual conservador, o casamento fica maculado se os gays agora têm acesso a ele. Daí eu volto ao que dizia: minha inteligência funciona de modo trágico, voltando-se para os aspectos insolúveis das disputas, ou insolúveis porque os dois lados aceitariam todas as soluções, exceto a única que funciona, que é sacrificar aquilo que define sua identidade.

Mas bem. Falemos de obras de arte. Diante da questão “devemos julgar moralmente as obras de arte?”, é preciso fazer várias distinções e observações. A primeira delas é: todo mundo julga “moralmente” todas as obras de arte. A pessoa que cria uma obra blasfema contra o cristianismo provavelmente considera nojentas as catedrais medievais, símbolos da dominação blá blá blá. A segunda é que essa ideia de “moral” é mítica, e se eu desmistifiquei a minha própria “moral” nos parágrafos anteriores, não vou poupar a “moral” do leitor. Observo que as pessoas chamam de moral ou de imoral aquilo de que elas gostam ou não gostam, e só. Você gostaria de trair seu cônjuge sem sentir vergonha, “culpa”, sem sofrer consequências? Então você aprovará filmes cujos protagonistas fazem isso, porque vai se identificar com eles. E depois você vai falar no direito de amar, de ser feliz, e que as situações são complicadas etc. Aquilo de que você gosta é complexo e cheio de nuances. Aquilo de que você não gosta é simples e grosseiro.

Assim como antes falei da expectativa de punição violenta que garante os direitos, também observo que há uma relação de causa e efeito no consumo de obras de arte. Já observei que ninguém discorda de que a ingestão de certos alimentos tem certos efeitos sobre o corpo (também tem sobre a alma, mas não falemos disso), e eu mesmo tomo a culinária como modelo para as artes, mas por alguma razão as pessoas acham que podem passar relativamente incólumes pelo consumo de obras de arte. E é particularmente engraçado que seja possível defender isso no mesmo momento em que vemos a maioria das pessoas de classe média urbana agir e falar cada vez mais como personagens de séries americanas. O ponto de vista irônico e cáustico das séries americanas é tão onipresente que chega a ser cansativo, sobretudo porque as pessoas acreditam que isso veio delas mesmas, não do canal da Warner ou de trezentos mil episódios de House.

Esse é um dos efeitos das obras de arte, reconhecido desde Aristóteles, que sugeriu na Poética que as plateias poderiam evitar a tentação de imitar a hybris dos protagonistas observando seus efeitos. Nelson Rodrigues também disse que mostrava horrores no palco para que não houvesse horrores na sociedade. O fato de que todos nós temos algo de Emma Bovary, querendo imitar o que vemos nas obras de arte, é um segredo protegido apenas pela teimosia de achar que somos nós os inventores de nossas atitudes, forjando destemidamente nossas personalidades, como protagonistas de livros de Ayn Rand.

Assim, diante da questão da conveniência de julgar moralmente as obras de arte, só posso observar que, se toda obra de arte tem algum efeito na alma, é razoável levar esse efeito em conta na hora de consumi-la, porque quem quer a causa vai levar o efeito no pacote, querendo ou não. Pior ainda, não existe bulimia artística, você não pode ver um filme e botar o dedo na garganta para vomitá-lo, nem pode pode suprimir totalmente uma melodia etc. Você pode, é claro, fazer uma nova digestão do que vê, ouve, lê etc., como que trabalhando seu aparelho digestivo intelectual. O que, naturalmente, não deixa de ser uma espécie de conversão, ao menos da inteligência.

É por isso tudo que a questão do julgamento moral das obras de arte no sentido de “se eu vir esse filme, irei para o inferno?” só faz sentido de maneira muito metafórica. Uma formulação mais razoável levaria em conta que toda e qualquer obra de arte depende de alguma identificação e de alguma abertura para ser apreciada. A criança que recebe goela abaixo uma colherada de uma comida qualquer não está disposta a gostar daquela comida. A pessoa que se senta para ver um filme sem aceitar as sugestões que vêm da tela, sem permitir que seja criada empatia, dificilmente gostará do filme, e estou falando de gostar, não de apreciar intelectualmente, de respeitar as qualidades etc. Como ninguém se julga eminentemente imoral em sentido negativo, ninguém vai dar empatia a algo que considere “imoral” ou ruim. Toda obra de arte depende desse elemento identificador e trabalha com ele em algum sentido, seja tentando purgar a plateia dele, como no caso da tragédia grega, seja tentando reforçá-lo, como no caso de Lost in Translation.

Uma outra maneira, talvez, de formular a questão, e que, essa sim, me interessa sumamente, é: de que maneira a obra trabalha seu elo de identificação com a plateia, e o que isso diz sobre a obra e sobre a plateia? E quais as implicações sociais disso (sempre no plano de “o que vai acontecer”, não de “o que deveria acontecer”. Nada mais fácil e simplório do que comparar algo real com algo ideal e censurar o real por não ser o ideal)?

E agora, para encerrar, vejo que poderia sintetizar essas reflexões todas reformulando a pergunta de maneira metafórica: dado o espectador x, a obra y tem para ele o efeito de alimento, de remédio ou de veneno?

Limites da fotografia de moda

Subitamente percebi que a freqüência de ambientes feios, sujos e destruídos em fotos de moda pode ser facilmente vista como mais uma projeção do que chamo de “complexo de Jesus Cristo” e como maneira de enfatizar o duplo angélico, isto é, tanto a idéia de que o sujeito individual é um puro e inocente cercado de sujeira por todos os lados, quando a idéia de que ele afeta sem ser afetado. Afinal, é a modelo linda no ambiente sujo que confere prestígio a ele, que só serve mesmo para fazer contraste. A modelo afeta o ambiente, sem ser afetado por ele. As diferenças são realçadas e o sujeito nunca questiona a si mesmo, porque está ocupado demais em questionar o mundo.

Seria exagerado, porém, sugerir que a fotografia de moda tenha alguma culpa especial ou maior do que as demais artes em, sem qualquer esquerdismo, que vocês me conhecem, vender mentiras para o famoso grande público. Até porque quase sempre a fotografia de moda está a serviço do propósito de vender roupas, e é muito melhor que as pessoas sejam inspiradas pela beleza na hora de escolher as próprias roupas do que o contrário. É quase que a finalidade própria da fotografia de moda oferecer duplos angélicos no sentido de “a melhor versão daquilo que se pode ser”. Estou apenas dizendo que a freqüência do uso de fundos feios para realçar modelos bonitas parece um sintoma da difusão do sentimento paranóico; todos, afinal, acham que são a reserva moral desse mundo vil.

Curioso é que essa bondade nunca se apresente de forma ativa. Por exemplo, nunca vi uma campanha ou um editorial em que as pessoas lindas e bem-vestidas estivessem realizando atos caridosos, como dar esmolas, servir comida aos pobres, ou mesmo dando as próprias roupas. Seria bom que essa campanha ou editorial trouxesse a bondade verdadeira, não a mera adesão ao cânone politicamente correto do dia, isto é, que mostrasse o amor ao próximo, não aquela pose de quem acha que está “contribuindo para salvar o planeta” — ou seja, de quem se acha mais um Jesus Cristo, um salvador do mundo. Agora, talvez essas fotos de moda não existam porque elas não venderiam roupas, e eu já passei da idade de ficar lamentando esse tipo de coisa.

Por outro lado, não sei se seria possível que uma campanha ou um editorial de moda questionasse diretamente a individualidade e a autonomia do desejo. É muito engraçado que trabalhos fotográficos caríssimos só sejam possíveis porque existe uma indústria da moda, que é a mesma coisa que a massificação. Mesmo que as peças nos editoriais e campanhas de maior prestígio não sejam para todos, a idéia (na verdade por trás de toda propaganda) de vender individualidade e exclusividade para as massas é engraçadíssima, sobretudo porque funciona.

É claro que ter determinados propósitos não impede a fotografia de moda de ser realmente bonita, assim como é claro que existe uma arte verdadeira ali. A qual, como qualquer arte, tem suas limitações. Se a moda é o oferecimento de modelos, talvez só mudando de ramo se possa explorar melhor certas nuances do desejo e das interações humanas. Veja-se por exemplo algumas das obras da artista Marina Weffort, obras que vêm diretamente questionar a individualidade: nelas, as figuras mantêm sua individualidade, ainda que se toquem, se contaminem, questionando suas próprias autonomias. As imagens tendem a um centro que não está exatamente em nenhuma figura específica, mas está nelas todas. Esse centro, parece-me, é o desejo. Na fotografia de moda, ele já se cristaliza como modelos a ser admirados e imitados; nas artes plásticas, pode aparecer numa representação mais direta.

Culinária, modelo para as artes

Há séculos a geometria é um modelo para as ciências por causa do grau de certeza que suas premissas e conclusões oferecem. No terreno das artes, porém, nunca houve um modelo consensual; o mais comum é que o músico ache que a música é a arte superior, o poeta ache que é a poesia etc. A exceção, é claro, é W. H. Auden, que era poeta e julgava que a escritura de romances era a verdadeira arte superior.

No entanto, creio que há boas razões para que a culinária assuma seu devido lugar de modelo das artes, e não estou sendo engraçadinho ao dizer isso.

Primeiro devo explicar que não possuo nenhum preconceito romântico: acredito que tudo o que pode ser produzido, de poemas a sapatos, pode ser produzido com ou sem arte. A arte não é um objeto, mas uma qualidade do fazer. Outra coisa é areté, a palavra grega de difícil tradução que deu “arte” em português, mas que pode significar algo como “superação”, “excelência”, “ousadia” ou “virtude”. Digamos que a areté esteja um grau acima da arte: essa representa o domínio do bom método para a produção de um artefato qualquer, e aquela a superação surpreendente desse método, com efeitos mais fortes, recuperando o espanto inicial que toma a consciência quando ela enxerga um objeto novo diretamente, e não mais através das lentes da convenção estabelecida. Por isso, a areté está para a arte assim como uma nova descoberta está para a ciência. O novo de hoje é o conhecimento estabelecido de amanhã. A areté de hoje é a arte de amanhã — um dia, por exemplo, Ésquilo foi extremamente ousado e colocou mais de um ator no palco. Daí, também, que a areté só exista perante o quadro de possibilidades artísticas conhecidas; ou, em linguagem mais simples, não é possível superar as regras se você nem as conhece.

Isso pode ser facilmente verificado pelas obras ruins: a tentativa de areté sem arte sempre resulta em algo simplesmente tosco, enquanto a arte sem areté é sempre mais tolerável. Maus poemas costumam ser pueris e confusos porque o “poeta” ignora o material com que trabalha. Antigamente, quando havia menos crença no inspiracionismo, a má poesia era ruim porque era excessivamente convencional e repetitiva. Hoje é o excesso de (tentativa de) originalidade que cansa. Um excesso, aliás, que já superou o paroxismo: se cada obra pretende reinventar a poesia, a linguagem, então precisamos reinventar todas as nossas categorias para apreciar cada uma delas. Só que recriamos nossas categorias apenas umas poucas vezes na vida, e os poucos artistas que conseguiram convencer sua platéia a fazer isso não apenas deram boas razões para tanto trabalho (normalmente, perceberam que as convenções da época tinham-se esgotado, e ofereceram uma nova articulação) como ainda conseguiram motivar a platéia a realizá-lo.

Daí que eu proponha a culinária como modelo para as artes. A experiência de uma boa refeição é suficientemente universal para que todos percebam que nela o prazer (a motivação) é necessário. Um grau acima, muitas pessoas podem perceber que há um elemento intelectual em qualquer alimento bem preparado, porque tudo o que é bem-feito tem apelo perante o intelecto. Como o homem é o animal racional, só aquilo que também é intelectual é plenamente humano. (O que não significa que eu esteja subscrevendo alguma concepção particular de razão; só digo que é mais humano aquilo que envolve nossa capacidade de admirar.) Mas é o prazer na alimentação que motiva o intelecto, pois é o prazer no contato com a obra de arte que nos faz querer conhecê-la melhor — e ela, para ser mais perfeita, deve oferecer algo também ao intelecto.

Mais ainda, é mais fácil e menos demorado saber se você gosta ou não gosta de um alimento do que de uma música, de um quadro ou de um poema. Pode haver muita controvérsia a respeito da qualidade de uma música, de um quadro ou de um poema, e muitos preconceitos de gosto (isso é, puramente subjetivos) podem imiscuir-se na análise. Mas, em questões de alimentação, a consciência daquilo que é apenas um gosto é aguda o suficiente para não produzir a rejeição intelectual de certos alimentos. Detesto feijão e sei claramente que isso me desqualifica para avaliar feijoadas. Detesto Walt Whitman e não consigo ter tanta certeza de que o problema é exclusivamente meu.

A produção de uma obra de arte culinária também é suficientemente complexa para servir de modelo. É preciso conhecer muito bem os materiais e as ferramentas. É preciso às vezes ser lento, outras vezes ser rápido, e é sempre necessário ser preciso para atingir o efeito desejado. E é bonito saber que um apreciador habilidoso consegue reconhecer num alimento pronto não apenas os ingredientes mas todos os processos a que eles foram submetidos — uma crítica perfeita da obra de arte. Conhecendo os processos habituais, as possibilidades estabelecidas, o bom crítico saberia até reconhecer a presença de areté na obra de arte culinária que experimenta.

Outro evidente benefício da comparação com a culinária está na diminuição das vezes em que a platéia é sujeitada a experimentos. É muito comum, nas artes plásticas, no cinema, na música, no teatro e na literatura que se justifique alguma obra dizendo que ela é “um experimento”, sem dizer se ele deu certo ou não. Na culinária, nenhum artista-cozinheiro submeteria a sua platéia a uma obra que fosse apenas “um experimento”, sem que houvesse alguma certeza de que ele teve sucesso. E você pode até dizer que isso acontece, que há restaurantes bizarros em que esquisitices são servidas, mas aí eu não poderia fazer nada além de responder: e quantas galerias, quantas editoras sentem-se plenamente à vontade para dar ao público quase qualquer “obra” que sua própria vaidade exija?

Por último, o mais interessante dessa comparação é ainda outra coisa: é evidente que, assim como quem possui uma determinada dieta alimentar sofre os efeitos dela em seu corpo e em sua vida — não estou falando só de engordar ou emagrecer; os alimentos têm inúmeros efeitos, como o café causar ansiedade em certas pessoas, o álcool retirar inibições etc — , quem possui uma determinada dieta de obras de arte também sentirá seus efeitos na alma e, numa certa medida, até mesmo em seu corpo. Com isso não estou propondo a criação de uma Food and Drug Administration das obras de arte, uma censura; mas também não posso ser tolo de acreditar que livros e músicas não têm efeito nenhum.

Seria igualmente interessante fazer analogias entre os preconceitos sociais relacionados aos hábitos alimentares e os preconceitos relacionados aos hábitos de consumo artísticos. Comer muito e desordenadamente é um vício; ler muito e desordenadamente não é? Aquele que se preocupa demais com a alimentação e evita obstinadamente alimentos de prazer mais imediato (como o chocolate) não pode ser comparado ao leitor que gosta de se vangloriar de desprezar a frivolidade?

Da necessidade de apetência imediata das obras de arte

Boas obras de arte sempre têm algo que chama e fixa a sua atenção imediatamente. Ou quase imediatamente. Elas não podem ser chatas. Chatice é isso: é você ter que prestar atenção em algo que não quer, é o conflito entre atenção e apetência. Admito sem problemas que da primeira vez que eu li muitos dos meus poemas favoritos não entendi rigorosamente nada do que era dito, mas os li até o fim com interesse e voltei a eles espontaneamente, até que a minha apreciação fosse aumentando. Eles eram atraentes; não havia conflito com a atenção. A “profundidade” veio depois; porém, posso lê-los e repeti-los todos só por diversão.

Não me importo que uma obra de arte tenha uma “mensagem”. A felicidade não se compra (It’s a Wonderful Life) é um ótimo filme que tem uma mensagem. O que eu não gosto, realmente não gosto, é quando a apreciação de uma obra de arte qualquer pressupõe que você, antes de ter contato com a obra, concorde com alguma ideologia ou alguma premissa realmente distante do senso comum. Você tem que acreditar na “fragmentação do homem contemporâneo”, na “degradação da sociedade de consumo” ou em sei lá o quê, para poder apreciá-la, como se a ideologia fosse a tese e a obra o exemplo que a ilustra. Se é um filme sobre a “fragmentação do homem contemporâneo”, primeiro tem que me entreter por duas horas. Depois, quando eu pensar a respeito, capto a mensagem.

O bem que o mercado faz às artes

Publicado originalmente no site do Instituto Millenium.

Mesmo os anti-brasileiros mais caricaturais não torcem o nariz para toda a nossa música. De alguma coisa gostam — ou admitem o valor de Villa-Lobos, ou, se são menos eruditos, têm suas canções populares de coração. Brasileiros no exterior ficam emocionados ao ouvir suas canções favoritas, porque trazem belas melodias e porque suas letras reproduzem um português vivo, verossímil, muito próximo da linguagem comum. Citamos versos de canções em conversas sem mudar de tom ou registro. A música é parte da nossa cultura, no sentido antropológico do termo. Está por toda parte.

A mesma coisa não acontece com o cinema. Um dia os filmes brasileiros talvez tenham sido mais populares, mas hoje nossos filmes antigos são esotéricos, enquanto filmes antigos estrangeiros costumam ser encontrados com facilidade nas locadoras. Há filmes nacionais contemporâneos que fazem sucesso, mas em cada lista de dez mais assistidos da semana no máximo encontraremos um. Porém, nas listas de músicas mais tocadas nas rádios, a relação é exatamente invertida: para cada nove nacionais, há no máximo uma estrangeira.

Agora vamos pensar. O cinema é subsidiado indiretamente pelo Estado. Para um filme vir a público, o cineasta precisa agradar alguns burocratas do Ministério da Cultura, de governos estaduais e municipais e alguns diretores de empresas — normalmente, de empresas estatais como a Petrobrás, que financia quase todo o cinema nacional. Todo filme pode ser um prejuízo completo: ele já foi pago pelos impostos que as empresas não pagaram. Assim, quem trabalha com cinema pode até ganhar dinheiro e fama se fizer um filme lucrativo, mas quem fizer um filme que ninguém pague para ver não vai perder nada – além de ter ganho o salário para fazê-lo, incluído no orçamento. Depois ainda ganha o direito de posar de gênio incompreendido por ter tido um filme rejeitado por distribuidores (que têm contas a pagar), exibidores e espectadores.

Já os músicos têm uma relação mais direta com o público; quase não há intervalo entre apresentação e aplauso ou vaia. Discos vendem e músicos e gravadora ganham dinheiro. Não vendem, e a gravadora leva prejuízo. É simples assim. O consumidor está endossando ou não o trabalho do artista. Por isso, não só pela genialidade dos artistas, mas também por eles se preocuparem com a platéia, é que temos um mercado de música vigoroso, efetivamente popular, e um cinema que só continua existindo por ser subsidiado.

Minha formação (VII): Ananda K. Coomaraswamy, Christian and Oriental Philosophy of Art

Ananda Coomaraswamy, Christian and Oriental Philosophy of Art

(Não deixe de ler, no site da Amazon, a primeira resenha do livro)

Há quem pense que eu intitular a série de posts “Minha formação” é pedantismo. Depois sou eu que não tenho senso de humor, mas vá lá. As pessoas costumam pensar que eu sou uma pessoa rígida e mal-humorada; acho, porém, que sou mais galhofeiro do que pareço. Mas chega de falar de mim mesmo, que não sou um blogueiro de esquerda que fica publicando as próprias idiossincrasias enquanto os espectadores do Big Brother se deliciam.

Interrompi os escritos sobre a série de livros por pura e simples falta de vontade de voltar ao assunto. Uma das boas coisas de ser editor e autor é que não sou obrigado a entregar textos no prazo. Miraculosamente, a audiência do site permanece estável.

Um livro que tem voltado muito à minha cabeça é Christian and Oriental Philosophy of Art, de Ananda Coomaraswamy. Traduzi metade do livro e em 2007, quando se completarem os 60 anos da morte do autor, pretendo disponibilizar o que fiz na internet.

Coomaraswamy precisa ser lido com várias reservas. Suas idéias não fazem sentido fora de uma concepção de “sociedade tradicional” dividida formal ou informalmente em castas, com um Estado forte. Além disso, ainda que eu não saiba se ele aderiu à tese guénoniana da supra-religião escondida no Tibet, certamente partilhava da idéia de que no mundo há diversas “tradições” iguais em valor.

Dois de seus argumentos, porém, são válidos e perfeitos. O primeiro diz respeito à suposta “inutilidade” da arte. Coomaraswamy entende que não há distinção de valor entre o sapateiro e o poeta, entre o engenheiro e o músico, e entende arte como “o modo correto de fazer as coisas”. A definição me parece perfeita: afinal, um poema bom foi feito do modo correto, e tem um determinado efeito sobre a alma, assim como um avião bem feito nos transporta de um lugar a outro. Os romances, filmes e músicas que ouvimos têm todos um efeito sobre nós; a maestria dos romancistas, cineastas e músicos está em sua capacidade de provocar o efeito que desejam. Este efeito, claro, pode variar imensamente: pode ser só a transmissão de um sentimento, a criação da motivação para uma determinada ação, ou a simples contemplação de algo – sim, a arte representativa pode ter uma função claramente didática. Não entendo por que pode ser bonito para alguém admitir que aprendeu tal coisa lendo um poema, um romance etc mas não é bonito para o escritor dizer que pretendeu ensinar algo. E, mesmo que a obra de arte apenas divirta, isto continua sendo uma finalidade (haveria outra finalidade na comédia?): gente burra se diverte rebolando, gente inteligente se diverte lendo Camões. Se a obra que pretende divertir não diverte, falta-lhe… arte.

O outro argumento importante de Coomaraswamy diz respeito à dignidade dos trabalhadores. Se há uma grande perversão na produção em massa, é a divisão entre atividades intelectuais e meramente servis. Se uma estilista desenha uma roupa e várias costureiras a reproduzem, a primeira tem atividade intelectual, livre, e as segundas uma atividade servil, determinada. Aquela é uma artista; estas, meras operárias. Não estou propondo que todo o modo de produção capitalista seja abandonado (porque isso realmente não vai acontecer), mas parece forçoso admitir que a famosa “massificação”, entendida no sentido de “estupidificação da cultura popular” se deve antes à massificação do modo de trabalho, que não exige do indivíduo esforço intelectual, do que à massificação dos produtos mesmos, ainda que uma coisa suceda imediatamente a outra. Afinal, há pessoas inteligentes ou excêntricas que adoram produtos de massa, como a sublime Coca-Cola, mas não há pessoas que nunca pensam em nada que continuem sendo inteligentes – o que não quer dizer que o simples pensar seja garantia, já que é possível pensar muito e só pensar besteira (vide blogueiros de esquerda). A necessidade de produzir algo bom, perfeito – a obra-prima – acaba ajustando a inteligência, que pode ser comparada a um músculo não apenas por necessitar ser trabalhada, mas por necessitar ser trabalhada de um modo adequado.

Da vantagem e da virtude de não levar a arte muito a sério

Após sua adesão ao Cristianismo, W. H. Auden costumava dizer em entrevistas que a arte é uma frivolidade, e que a única coisa relevante era amar a Deus e ao próximo. Por mais impressionante que seja que aparentemente não lhe tenha ocorrido que a arte pode ser também uma maneira de amar a Deus e ao próximo, sua afirmação faz sentido. Mas antes de chegar a seu sentido mais geral, vamos lembrar que, para Auden, dizer isto era de certo modo negar os breves anos de intensidade marxista-freudiana de sua juventude em Oxford, e enfatizar o que já tinha dito com o famoso “poetry makes nothing happen” do poema dedicado a W. B. Yeats. Auden queria mostrar que a arte não é eficaz enquanto instrumento de ação política, em suma.

Mas é interessante comparar a afirmação de Auden com o excessivo respeito à “arte” — aqui uso o termo apenas para me referir às “artes” do senso comum contemporâneo; no futuro, escrevendo sobre Coomaraswamy, precisarei o termo — que costumam ter certas pessoas; um respeito propriamente religioso. Crêem que as obras de Shakespeare, Camões ou sei lá quem são intocáveis como as palavras das Escrituras (nas quais mesmo a Igreja não deixou de tocar, aqui e ali; compare em diferentes Bíblias a enumeração dos frutos do Espírito Santo em Gálatas V, 22; leia a questão da Suma Teológica a respeito), e concedem às artes, com exclusividade, toda a dimensão do sublime, do transcendente, do “metafísico”; e aliás “metafísico” é uma das palavras mais vilipendiadas dos últimos 100 anos. Mas, voltando, há muitos que crêem que o playground mental proporcionado pelas obras de arte é o que existe de mais sagrado neste mundo, e também mais puro.

Um destes “muitos”, me lembro agora, foi Ezra Pound. Pound defendia abertamente que o mau artista deveria ser preso e era mesmo um totalitário. Era fascista, fascista mesmo, foi para a Itália apoiar Mussolini; não era o “fascista” da nossa linguagem comum, que significa apenas “pessoa de quem não gostamos”. Era um homem que era a favor de matar pessoas que discordassem de um plano político, um totalitário.

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A questão, é claro, é que os sonetos de Shakespeare, os poemas de Villon etc não são sagrados. Nem os quadros de Rembrandt. O ser humano nasce, creio, com uma espécie de ímpeto religioso; se este não for devotado às coisas realmente maiores, irá voltar-se para outras coisas, necessariamente menores; e é assim que nasce um Ezra Pound. Toma-se algo que é puro fruto do engenho humano, que é condicionado, local, circunstancial — toda obra de arte é circunstancial, mas isso é assunto para depois — e alça-se este algo ao patamar do universal. Eis, de modo grosseiro, uma pequena receita de totalitarismo. Vide, um pouco mais ao norte da Europa, a importância que Hitler dava à arte.

A pessoa religiosa, por outro lado, sabe que transcendente, só Deus; que extraordinário, só Deus; e Deus é inapreensível. A consciência da própria pequenez diante de Deus gera o bom-senso: “posso estar errado”. Não é tão difícil criticar Yeats ou Valéry ou Auden ou Pound; mas é impossível elevar-se por si ao nível de Deus e criticá-lO. A pessoa religiosa sabe que um poema é só um poema; que a gigantesca maioria dos poemas, mesmo os mais importantes, constitui apenas uma forma de diversão. De diversão sim: a alma tem necessidade de relaxamento. Pessoas boçais rebolam, se entopem de comida, e pessoas inteligentes lêem poemas, vêem quadros, ouvem música.

Que Auden tenha aparentemente desconsiderado esta necessidade da alma, entende-se pelo contexto. Mas nós não temos o contexto dele; eu, ao menos, não tenho. Tenho à minha volta, na Faculdade de Letras, pessoas atéias que acham que escritores são deuses; idolatria, óbvio.